sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Direito de Resposta

Talvez fosse mais prudente não haver escolhas. Em uma dimensão perfeita nas vias de fato do comumente belo, em cujas formas sempre existirá o fundamento para o necessário. A liberdade promove constatações dolorosas, na brevidade intermitente do silêncio. Os princípios se elegem justa causa para a dor, que é a superlativa crueldade do mundo moderno.


Quem sabe tenhamos esquecido a pureza das crianças? Aquela sinceridade embutida no frio da barriga que não mente a vontade (que não dá e passa). Ou seria o hábito do cachimbo modelando a forma tosca e inerte de vida em sociedade? Queria os ecos do sorriso fiel, da conversa segredada, sem os apelos do tapa nas costas nem o desandar do soco no estômago.


Puxaram o freio sem o cinto de segurança. Sinto muito. Tiraram o doce da boca das crianças, sem que ao menos fosse dada a chance do proveito, da experiência. E das primeiras fotos, da bola, da bicicleta, já não guardam lembranças. A memória resguarda o primeiro confronto, nas rédeas da competitividade, ora na insegura companhia dos tidos colegas.


O orgulho vendido às submissões invioláveis monitora as chamas do descontrole. O caos é o lugar comum. E nem consultaram o Dr, Nietzsche, posto que, em suas premissas, caberia o nascimento de uma estrela que não se satisfaria ao som da chancela. Tropas de elite inquietantes, tumulto formado nas esquinas do subúrbio carioca, cujo retrato desmerece os contrastes étnicos que compõem o charme e a beleza da cultura matriz.


Filhos da pátria! Que liberdade de expressão é essa? Como podemos encarar os desvios de conduta de maneira tão distante? O vício está a um palmo do nariz e viramos o rosto por conta da vergonha. O medo resvala na linha tênue entre a revolta e estapafúrdia convicção do preconceito. Embebido de consciência crítica e tabus que ficam embutidos nos egos, nos lares, na imparcialidade.
As fileiras dos espaços públicos se preenchem de status e o filme é revelado de forma sistemática nas praças e nos becos do Centro culturalmente enriquecido pela falência da Administração que se queixa diante das disparidades no topo da hierarquia. O preço da verdade está no inequívoco da prestação de voz à razão do conflito. Às vésperas de mais uma campanha eleitoral, a ordem do discurso se encarrega de apropriar as responsabilidades de quem, de fato, não se pode esperar muita coisa.


Por que perdemos a confiança? O publicismo expõe as trêmulas desconfianças do conturbado e desenfreado cenário social. As vielas e as ruas não comportam os preceitos pré-estabelecidos na corrupção política, na falta de critério e no desleixo com a transparência dos gastos públicos, à margem da manipulação maçante da carga tributária nas esferas estadual e federal.


Preferimos não ver? Ou é melhor se calar? Segundo o ditado, quem cala consente. Os compromissos das autoridades são plenamente colocados em prática. Será? O governador do Rio, Sérgio Cabral, anunciou recentemente mais R$ 100 milhões em investimentos no setor de Segurança Pública do Estado. Uma guerra civil é “anunciada” através do despretensioso tombo de um avião de Defesa da Polícia Militar no Morro dos Macacos, em Vila Isabel.


O quarto poder se prepondera nas versões desmedidas da factualidade e se esquece de mostrar o processo. A inversão dos valores se convola na indisposição dos organismos alheios. Os “sacos” já não mais suportam os tristes fins, que infelizmente aparecem desprovidos da ficção tão despropositada de Policarpo Quaresma.


Ainda no universo da ficção, diria uma canção do “O Rappa”: “Corra que o tumulto está formado!”. O digníssimo Secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, tem a cara-de-pau de proferir que o “Rio não é violento”. Quiçá, tenha dito por conta de não ter sua privacidade alvejada por balas “achadas” na cortina das propinas e das desavenças entre policiais e narcotraficantes. O crime não compensa e qualquer erro é preponderante.


Daqui a poucos anos, a Cidade Maravilhosa vai receber eventos de grande relevância para a imagem do país no cenário internacional. A Copa do Mundo, de 2014, terá a cidade com um dos palcos para sede, além dos Jogos Olímpicos de 2016, como superfície de turismo e hotelaria de grande referência para a clientela européia.
Segundo dados do Orçamento do Estado, divulgado pelo site “RioComoVamos”, serão liberados R$ 25,9 bilhões para as Olimpíadas no Rio. À guisa de curiosidade, seriam prioritárias tantas casas decimais em investimentos na organização de um evento esportivo. O que você faria como esse capital inicial?



Os arremedos das linhas de transmissão deixam de agourar ao pleito da população que cisma em respirar o esgoto da “alta sociedade”. Faíscas, estrondos, falhas, ausência de compensação, formas escusas em desvios de verbas. A síndrome das cicatrizes consome a esperança ao passo que o apagão acompanha a cegueira ao lado.
É o acinte deliberado no despautério da burocracia inútil. Maltratada metamorfose. Fulgura o florão da América em berço conhecido como esplêndido.


Cumpre questionar: Será que os filhos verdadeiramente não fogem à luta? Somos alvos móveis da incapacidade de gerir nossas próprias existências. O litígio é a anormalidade encarregada de padrão aos desfechos mínimos dos trizes. E a mácula é inevitável, ainda mais na intolerância aos desditosos, como a mancha de café na peça de cetim.

domingo, 29 de novembro de 2009

Viver sem tempos mortos

Sobre a peça de Fernanda Montenegro

A maior qualidade de um ator é não estar ali;em contrário é dissolver-se em brumas emprestando alma e sangue, músculos e ossos ao exercício da interpretação de alguém. Desse emaranhado de sensações e dores que chamamos existência, extrai material essencial de seu labor, tecendo com fios invisíveis a composição do personagem. Seus olhos choram a dor do outro e é nas suas mãos que o destino a este chegará, mas sua matéria não exemplifica nada ou quase nada próprio. Doa-se por inteiro em gotas de suor e êxtase, no suave contorcer-se do corpo na ânsia de dar voz ao outro que nada tem de seu. Seus passos percorrem o palco na penumbra marcando a vida daquele que não fala por si. Seu rosto evidencia a emoção da alma que desnuda, céu e inferno, nas profundezas do eu. Antes, é a sua própria vida que despeja no piso frio da ausência de cenários. Não é preciso. Sua voz é pincel é tintas, onde a vivência alheia vem à tona ante o silêncio comovido do público a acompanhar com a respiração em suspenso o evoluir do personagem entre luz e sombras. A alma nua sob os holofotes nada tem a esconder, amplia-se em frases e silêncios, onde o sentido vai conhecer o significado do existir. E o amor a constituir-se em matéria palpável, permeado de desejo e solidão. Eu, diz a personagem. Ao que responde o público: todos nós. Não há quem não se sinta preso ao olhar profundo da respeitável senhora, sentada em sua cadeira a desfiar num rosário as experiências de uma mulher. Mas seria só uma?Seus versos abarcam toda uma humanidade de homens a aclamar uma só palavra: liberdade. É preciso viver e mergulhar no vazio de si, aceitando o fardo da impossível e angustiante existencialidade, pondo por terra os conceitos pré-concebidos de mundo com os quais se entra no teatro. Lance-os ao chão, diz a atriz, mudamente, lance-os fora. Não servem mais. Homens, mulheres, moral, deveres, lancem-nos ao chão. Somente a verdade pessoal de si é permitido conservar. De resto a alma lavada e dolorosa,mas viva e verdadeira,definitivamente livre.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Flores Partidas

Desmarcadas as despedidas
Nos estimáveis périplos da paixão
Fórça o peito de saudade
Na secreta trajetória do ímpeto
Do inviolável pedido meu...
A concórdia das vozes insólitas
Reproduz o cenário do amor
As flores dispostas secas
Enlateciam a invasão no peito
De um sentido desfigurado
Em cuja performance se conforma o não-ter

Partem-me as rosas

Na retrucada mão do abismo
De vias de fato do talvez
Princípios recalcados nos cúmulos
Que monitoram o sentimento teu
Na esperança de ouvir a voz
Efêmera em tuas curvas
Sedentas de desejo
Na indiscreta sensação do pavio curto
Com a parcimônia do belo luar de fora
E a cândida desavença dos quereres
Similitude incompreensível de minh'alma

Vês o avesso?
Esqueceu a ousadia?


Mostra tua verdade
Nos véus da aparência
Costumeira da sociedade dissonante
Mergulha na fina flor desta folia
Vez desprendida da insígnia

Consulta o céu pela manhã
Pensando friamente, dispenso as sem-razões
Imaculada vontade do querer
Discrepante a cada dia
Fugaz na companhia do luar
Que, hoje, li belo lá fora
Vide a fé de dentro
Na unção de todos os sentidos
Em si desmedidos até de caráter
Simples trato do caos dançante

Puseste a mão em teu peito?
O que ouviste?


Prestes a oprimir os presságios da Natureza
Encanta o filho da criação
Com o sorriso da tua vida.

domingo, 1 de novembro de 2009

Obra Prima

Vozes gris aprumam conselhos
Na plenitude da alma imersa no caos
As folhas secaram de tanto chorar
Esperando o alento despertar na virtuosa calamidade
Do jardim de dentro de mim...
E as flores brotaram, reproduzindo o silêncio
De gritos ensurdecedores na interseção do conflito.
Sucumbem em meio à escuridão os sorrisos
Amaros tons da felicidade importada
Falam-me as pétalas sobre o derradeiro
Exalando a efemeridade dos sonhos
Nos confins das tréguas dispersas
Da ordem involuntária das coisas
A similitude de tua imagem
No meu espelho refrata a sensibilidade.
E a percepção acudiu as regras
Como anomalias vigentes dentro do todo.
A parte avilta os momentos discrepantes
Ser lógico é deter a verdade?
Seria mesmo a razão pura a fonte do conhecimento?

Faltam-me ares para desvelar segredos
Valores próprios do sensível
Dirimindo os carinhos da calma
E as versões da culpa que repercute no exílio.
As relações, definitivamente, não são contratos.
Parecem-me acordos da pressa de não se ter
Em detrimento do risco de querer
Na indisposição da dúvida
Em sua frequência intermitente
Nos recônditos da estapafúrdia dissonância cordiana
Onde a entrega vale a joia preciosa
Que o bandido levou sem pedir licença
Nem preciso dizer que o licor está entranhado nas vísceras
Daqueles pretextos encenados guardo as poesias,
Colírio do paciente infinito
De preliminares extensos ao pé da cama
Na vultuosa celebração das unidades cúmplices no intervalo do acaso
As taças, jogadas ao chão, indicam o infinito
Embebido de prazer no ritual do triz
As frutas envolvidas pelo chocolate
Na disposição tênue de teus lábios
Ruborizam os fogos de artifício no peito do artista,
Certo de que a criação não passou de um lapso
Do tapa inesperado à convicção do desagravo,
Tudo ressoa incrustado na represa das emoções
Que alaga os clarões de pensamentos
Na indiscrição dos sentimentos escusos
De vidas a casos velados
Carta na manga de um fel atônito
Apriorismo do amor puro no desejo indissociável
Tom da púrpura certeza na mesmice de hoje
Ao aviltar os pássaros em seu humilde canto
Que prestigia o isolamento da lembrança
Esmiuçada em palavras e hipóteses
No arbitrário jogo das ideias
Insólita missão essa do recurso ambíguo
Entre as disparidades dos interesses controversos
Alvoroços das festas sem a música preferida
Que grita embaixo da superfície na qual há esperanças
Vicissitudes aportam à redenção despida de crença
Rapto dilacerado do comodismo
Cortejos sinuosos pedem o divisor de águas
Na finita perturbação do tropeço em suas tais vezes
Defino em frestas e faíscas o lampejo da métrica no agora
Que passa a não sê-la neste degrau
Abaixo de ti na escala do acalanto
Entreaberto na odisséia de saberes expiados
Findo o crepúsculo na ausência de luz
Levada pela constelação atinente ao movimento ligeiro das formas
Perfeitas em seu encadeamento lógico
Equilibradas na estapafúrdia calmaria das ondas
Nos destoados esguichos de rimas enrustidas
Nas contraproducentes dimensões do além do mais.
Os dissabores condecoram a desonra ao mérito
Do atrito incontrolável dos entraves
Que, sem pestanejar, deixam marcas comportadas.
Do vento trago as folhas que emprestam as passagens
E mostram os caminhos naturais
Da próxima partilha em terras desconhecidas
Longínquo terminal da sede de quem se vê caprichoso.
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

SOBRE O INDIZÍVEL

HÁ VEZES EM QUE NÃO PRESTA O TEMPO PARA O RACIOCÍNIO. // E O PREÇO É A VERDADE. // CÚMULO DA ALMA, SOPRO SEM CULPA. // APENAS OS DESDOBRAMENTOS DA CRUA REALIDADE SOBRE AS PINCELADAS JÁ ESMAECIDAS. // E O CONTRASTE É A EMOÇÃO DO INSTINTO. // DESCONTÍNUO COMPASSO DE TRIZES MUTANTES, EM CUJA PARCIMÔNIA DEIXOU DE SE FAZER VALER A DOR. // AS HORAS SE FORAM NA INTRÉPIDA PENUMBRA DO CINISMO E AS VOZES SILENCIAM SEM PERDÃO. // JAZZ AQUI O CORO DE DENTRO, REFRÃO ADJACENTE AO PEITO, QUE TANGENCIA O CORAÇÃO NA PERIGOSA ESTRADA DO IMPERFEITO. // NELA, O ERRO É VITAL, FILHO DA TRAGÉDIA, NAS RAÍZES QUE AFIRMAM A REPERCUSSÃO DO MUNDO SENSÍVEL. // VÉUS RESPONDEM À SOMBRIA REFRAÇÃO DO TREVO RACIONAL. // EMANAM A LINHA TÊNUE ENTRE A CRISTALINIDADE E A DÚVIDA, EM CUJA TRAJETÓRIA A PALAVRA DESDENHA AJUDA. // O PEITO ECOA O AR EMPAPUÇADO DE AMOR NA TRILHA DAS SENSAÇÕES. // O SUFOCO ANTECIPA A PRESSA NA IMENSIDÃO DO NOSSO PRÓPRIO DOMÍNIO. // O ABISMO DE DISCREPANTES ALTERNATIVAS RESVALAM NA SEPULTURA DOS CONTOS. // E O SUMO FICA NA POESIA AO PÉ DA CAMA. // POST SCRIPTUM DE INTERMITENTES DESEJOS, ENTRANHADOS NO SUOR SINCERO DA NOITE VIOLADA. // TRÊMULAS MÃOS ACORDAM A BANDEIRA DO ELOGIO ÀS ESCURAS. // SEM PERDAS NEM ENGANOS. // O MOSAICO DO CORAÇÃO RESSOA AS BATIDAS DESCOMPASSADAS, NO LIVRE-ARBÍTRIO DAS CORES DISSIMULADAS. // O CRÉDITO DO DESPERDÍCIO REMONTA O INCONSCIENTE PARA O MEL DOS LÁBIOS PUROS. // SEM QUE A BRISA DEIXE DE CONSOLAR O ANTIQUADO OLHAR DE AGORA. // MAIS MADURO, MAIS SERENO, MAIS RACIONAL. // A PRECE AO HORIZONTE REPRESENTA A CRENÇA DE NÃO MAIS IDEALIZAR. // AS SEM-HORAS DA DÍVIDA FINALIZAM A REPRISE DO DESDÉM. // E O VÃO ESQUECEU AS BRECHAS DO SUTIL RECADO EM TRISTES FINS QUE NUNCA DEVEM DEIXAR DE EXISTIR. // CÉLEBRES PRAZERES DA ELEVAÇÃO DO EFÊMERO. // PERSPECTIVA MODERNA DO GROSSO MODO DE REPELIR A SI MESMO, EM VAZIOS ALHEIOS. // O ENCONTRO SADIO RIDICULARIZA O TEXTO PRONTO GUARDADO COM CARINHO. // NADA SUBSTITUI O CONFRONTO. // E A GUERRA COMEÇA ANTES MESMO DA CHEGADA, EM SÚBITOS LANCES DO PRETEXTO. // O VÍCIO DO SABOR TORTUOSO PROMOVE A PERDIÇÃO COMO A VILÃ DA HISTÓRIA. // E PRECISA DE PERMISSÃO? // A PORTA JÁ ESTAVA ENTREABERTA. // ATÉ PARA AQUELES QUE NÃO CONSEGUEM ADMIRAR. // A REDENÇÃO MORA NO ÊXITO DA CONSCIÊNCIA. // MESMO QUE NÃO CONSTEM ACERTOS PRIMOROSOS. // A CELEUMA DA EXISTÊNCIA ESCONDE A PUREZA E REPRIME O ESPELHO. // AS CICATRIZES CAUTERIZADAS TREPIDAM NA FÓRMULA INEXISTENTE DO RECOMEÇO. // E O SOL AINDA NÃO SE PÔS NEM COM A PENEIRA. // SUSSURROS RECOMENDAM OS SINAIS DA MANHÃ DO DIA SEGUINTE. // É O ANÚNCIO DA PRESENÇA, SEM PESARES, COM AS HONRAS DE POUCAS ESTÓRIAS BEM CONTADAS, SEM MAIORES DELONGAS, PARA AS CHAMAS DA CONSCIÊNCIA, DO SABER DE SI NA UNIDADE DE DOIS. ///

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Da imprevisibilidade

No cinema, como na vida , a linguagem existe além da mera percepção da retina, onde palavras e conceitos escondem o real significado da mensagem, quase sempre reflexo do inesperado.
Assim o sentido de uma obra cinematográfica não está em seus diálogos, planos de cena e iluminação, nem tão pouco na ótica do diretor. Por mais se esforce, seu discurso visual não habita o plano do objetivo, mas no espaço subjetivo onde as palavras formadas por cada gesto vão encontrar sentido e significação.
Na obra Melinda e Melinda, do diretor W.Allen, os olhos vão captar uma história comum sobre encontros e desencontros de casais no início da maturidade, pressionados sob a obrigatoriedade de fazer diferença no ciclo social onde convivem e a constatação de que o tempo caminha na contramão das certezas e tudo que se pode fazer é prosseguir. Personagens e dramas sucedem-se na tela em seus discursos previsíveis, sem que exista de fato surpresa ou tragédia no que vivenciam. É apenas vida do outro, em estado de contemplação.
No entanto é o instante entre palavras que guarda o sentido da mensagem, não na construção de personalidades factíveis, mas no lexo da subjetividade das relações dos personagens. O cerne do discurso da história que não consta da sinopse do filme e que guarda o encantamento vai falar de contato,de comunicação,do momento em que se percebe o outro e do caráter irrevogável desse evento.Nada mais é preciso do que conectar-se à mesma freqüência de alguém para ser capaz de decodificar a mensagem subentendida nas entrelinhas das máscaras e convenções, salvas as limitações morais e éticas de cada um.
Perceber o outro é antes de tudo, mergulhar no escuro, num manancial infinito de signos distintos, imprevistos, onde a lógica se abstém de julgamento e o senso comum não compõe interpretação verossímil. É preciso estar distraído para compreender e é nesse viés em que o filme narra sua história. Homens e mulheres atraem-se mutuamente, aproximam-se , relacionam-se e afastam-se sem que se possa conter ou estabelecer parâmetro por mais tentem.É antes o tempo do imprevisível que traça a rota dos acontecimentos.
Dar o primeiro passo é arriscar-se ao desconhecido, no terreno da dor ou do prazer. Melinda, a personagem-título,conhece os dois lados, caminha na linha tênue entre o sim e o não e experimenta a angústia da escolha.Se seu roteiro será comédia ou drama não depende somente dos narradores em perspectiva,confortavelmente sentados num pub filosófico a dissertar sobre lugares comuns, mas do incerto apelo do imprevisível em sua vida,convidando-a a rir ou chorar.Sentir é inconsciente, agir é um ato de coragem além da ficção,no terreno do talvez.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Helicóptero da polícia é derrubado no Rio de Janeiro: por trás dos fatos

“Tumulto, corra que o tumulto está formado, vem cá vem ver, que dentro do tumulto pode estar você”.(O Rappa)


O conflito de traficantes no Rio de Janeiro não deve levar, ao contrário do que aparenta, a uma solução rápida, eficaz e pontual, como sugerem as declarações do Secretário de Segurança José Mariano Beltrame e dos comandantes da polícia militar e civil. Como dizem os antigos, o buraco é mais embaixo e passa por um processo de exclusão social que não só fomenta a revolta como legitima a violência, conflagrada não somente contra a parcela da população aquém dos índices de desenvolvimento humano, esmagada sob política públicas de confronto, celebradas pelo governador carioca, mas também contra os ditos agentes da guerra civil que hoje ganha as capas dos jornais para júbilo da mídia, a saber, policiais e traficantes.

Soldados armados, amados ou não
Com baixas de ambas as partes os dois exércitos estudam-se, analisam a estratégia e em suas ações não se preocupam com as centenas de civis colocados em linha de tiro quando de seus confrontos, quase sempre previstos e aguardados. Dos dois lados existem subversões, exageros, exceções, entretanto somente contabilizam-se os mortos do lado de cá, onde aguardam as câmeras. A eles, os outros, sobram os cães, a humilhação das revistas, o pé na porta dos barracos no cume do morro onde não costumam chegar as luzes midiáticas, contanto preocupem-se em equipar seus repórteres com coletes à prova de balas.
No entanto não cabe mais definir o corpo societário, segregando-o entre excluídos e excludentes, pretendendo que a simples aplicação das leis sob um Estado utopicamente de direito possa solucionar o problema. Resta-nos administrar a conseqüência endêmica das praticas setorizadas que limitam as comunidades mais pobres ao seu próprio espaço físico e “que se resolvam por lá”, com a criação sazonal de escolas e hospitais no campo emergencial de práticas essas que não foram suficientes para conter o alastramento do vírus da violência em última escala, explodindo por sobre os ombros do corpo policial do Rio, nas hélices de um helicóptero que foi feito para levar a segurança por sobre sua fuselagem semi-blindada.

Política de confronto
Segundo o comandante geral da PM, está em negociação a compra de um modelo blindado que certamente será de grande utilidade frente à guerra civil carioca. Em que pesem as vidas de servidores públicos arriscando-se por acreditarem no modelo de segurança imposto pelo governo (não enfrentariam incursões quase diárias em favelas onde os aguardam armamentos centenas de vezes mais sofisticados que os que envergam se não o fizessem), não se pode crer que armar melhor a polícia surtirá efeito além dos fogos de artifício dos grandes jornais pela oferta de noticiário. Tão somente ocorrerá a momentânea sensação de segurança somente nas pautas dos jornais diários, uma vez que a classe média espremida entre o medo e a raiva, já não consegue experimentá-la.

Acima da lei
Não existem leis que possam punir de forma eficiente indivíduos que não se sentem abarcados por ela, sob um estado que não respeitam e valores de uma ética distante do seu cotidiano. As prisões construídas em cada estado brasileiro jogam para debaixo do tapete a realidade de que a cidadania não é para todos, tão somente para aqueles que alternam-se entre documentos oficiais e estatísticas, quando passam de contribuintes à vítimas da violência urbana.

Quem são os cidadãos?
O mundo dos registros, dos impostos e obrigações não é válido para uma sociedade paralela onde a desordem se responde com a imposição da força. Afinal saúde, educação e emprego são direitos fundamentais garantidos pela Constituição, numa configuração que não abarca a todos, apenas aos cidadãos que enxerga. Longe dos olhos da justiça permanece um aglomerado de pessoas vivendo entre o medo do próximo e a indiferença do outro. No cenário que se configura hoje já não cabem mais os estereótipos de bandidos e mocinhos, onde os primeiros eram divididos entre bons e maus, esses últimos que roubavam mas protegiam sua própria comunidade em oposição aos heróis, de fardas ou sem, que sacrificavam suas vidas em prol de uma sociedade que os aplaudia.
O resultado da subversão da humanidade em que muitos dividem o pouco num espaço exíguo e poucos caminham cegos em suas ilusões de prosperidade gerou mutações sociais, relações corrompidas num ambiente em que a dor chega para todos. Já não há mais classes, corrupção e violência chegam a níveis inimagináveis, principalmente porque estivemos muito preocupados contando nossos mortos, enquanto o que acreditávamos ser o outro lado sofria baixas que julgávamos necessárias. Somos todos resultantes da mesma prática doentia e excludente. Ainda queremos apenas segurança no ir e vir, sem pensar que este conceito passa pelo primordial respeito ao próximo e seu igual direito não só de ir, mas também vir se assim tiver vontade.

Estado de direitos iguais

Resta hoje o tempo de repensar esse conceito e avaliar quão longe fomos na nossa tentativa de controlar o incontrolável. Massas de pessoas não ficam muito tempo sob o tacão armado do Estado. Sobram elementos que transbordam das vielas, ganham as ruas e chegam até as nossas janelas. Incômoda realidade?Certamente. Mas a conclusão persiste no fato de que somos definitiva e irremediavelmente semelhantes, em fragilidade e desejos. Cabe-nos romper o muro subjetivo que ainda persiste e recriar o governo sob um estado verdadeiramente de direito, não somente para alguns mas para todos,cidadãos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ALL STAR

Estranho seria não perceber tanto encanto. Os passos seguiam firmes na íngreme elegância do par de all star branco. Não há nada parecido. Espaços, conteúdo, reticências, riscos, incertezas e a alegria incontestável rebuscada ao doce acalanto das noites no meio da semana. Nunca se espante diante da pureza de minhas respostas. A dúvida é o estímulo para a busca incessante de melhorias. E o preço da verdade está muito aquém da sua presença.

A ressalva da vida se apresenta na falta de consternação sobre os eventos necessários ao alcance de fôlego. A realidade se acomoda na proposta mais incólume e esquece que, para tirar proveito e ganhar o dia, bastaria nada mais do que um minuto ao teu lado. O xadrez fica bem, ainda que as peças não se movam com tanta facilidade. Nada com um dia após o novo. E o desejo se espaça nas batidas do coração, onde o ritmo dita as ordens.

Os lanços de escada indispensáveis ao doce traço de seus passos. Os tênis mostram a serena trajetória que os teus longos cachos pairaram na imensidão da vivência humana. E o contentamento se faz suficiente na perspectiva indissolúvel dos olhares cristalinos, puros, aptos... A subversão à lógica propicia o desejo incontestável da avassaladora voz do coração: “Olha, vê, repara...”.

As vezes da indiscrição pegam na surdina meu imaginário caçoando das verdades alheias, ao passo que os rostos já me mostram mais lucidez. Ponto e vírgula, que é para ser mais enfático... Nas coincidentes reticências encontramos as dúvidas que deixam os retalhos do “se” nos vãos lamentos da discórdia. E nada resiste à beleza de tuas vestes livres, a cobrir teu legado de amor, a despeito de pouco troco. Perdi-me nos bosques da aparente felicidade.

O saber desconfia da herança que não mais te alude. O beijo segredou o adeus sem deixar recados. E de ti só restou maturidade. Será que você entenderia do meu amor? A descoberta é fria através das portas entreabertas que os caminhos perfazem em nossa história. Vide o mosaico de situações no painel da vida. Feliz é o artista que consegue apropriar todos os cenários, trans-bordando felicidade num simples “obrigado por vir”.

Destarte a decepção de antes, há de entender que o amor emergiu ao coração de forma sorrateira, adicta, como num piscar de olhos. A gentileza que brota de tuas mãos aflora as ideias e sabota o silêncio dos outros sorrisos. O resvalo da dor é a displicência da alma em não ter coragem de ser si mesmo. Volva teus olhos ao colo alheio. Pesa teus valores. Procura algo mais? Ou ainda se contenta com o que te traz mais segurança? Alimenta teu ego querer o néctar das flores que deixei guardadas em local público?

Não sei até que ponto a ausência de dor pode fomentar progressos... A melodia aproxima os olhares na criação do poeta com a própria existência. Aquela exuberância das sextas deixa o ponto de interrogação sobretudo aquilo que possa antecipar a mim tuas canções preferidas. Raízes escusas, paixões antigas, endereçamentos em papéis de cartas nas lembranças de tua infância. Saber-te perdida em livros, na imensidão do mar de teus apensos cordianos, coloridos na bela vinheta do preto e branco em sombra e luz, da metamorfose inquestionável do ser.

Constelações tripudiam dos meus flutuantes de mim. A menina essencialmente vestida de colegial acabou de roupão azul em campos controversos. O disfarce lhe trouxe maturidade repentina do açoite nas palavras mais intrigantes o possível. Restante a saudade das cadeiras de plástico e a hombridade da compleição no bom gosto, na harmonia e na afoita ponte entre o ser e o querer.

Silvos breves ecoam na multidão. Ela acredita em um mundo mais justo. Isto é visível em suas feições. Por mais que as elucubrações se façam tamanhas na célere contestação da humanidade. A receita é de pão fresco na esquina de casa. E o voto da unanimidade é de festa em festa, na maquiagem do amargor cotidiano. De vez em sempre é maravilhoso vê-la estrela.

domingo, 11 de outubro de 2009

Algo que petrifica à alma

HYMNE À L'AMOUR
(M. Monnot / E. Constantine)

Edith Piaf


Le ciel bleu sur nous peut s'effrondrer
Et la terre peut bien s'écrouler
Peu m'importe si tu m'aimes
Je me fous du monde entier
Tant que l'amour inondera mes matins
Tant que mon corps frémira sous tes mains
Peu m'importent les grands problèmes
Mon amour, puisque tu m'aimes...
J'irais jusqu'au bout du monde
Je me ferais teindre en blonde
Si tu me le demandais...
J'irais décrocher la lune
J'irais voler la fortune
Si tu me le demandais...
Je renierais ma patrie
Je renierais mes amis
Si tu me le demandais...
On peut bien rire de moi,
Je ferais n'importe quoi
Si tu me le demandais...
Si un jour la vie t'arrache à moi
Si tu meurs, que tu sois loin de moi
Peu m'importe, si tu m'aimes
Car moi je mourrai aussi...
Nous aurons pour nous l'éternité
Dans le bleu de toute l'immensité
Dans le ciel, plus de problèmes
Mon amour, crois-tu qu'on s'aime?...
...Dieu réunit ceux qui s'aiment!



"O Amor é a memória que o tempo não mata,
a canção bem-amada, feliz e absurda...
É a música inaudível...
O silêncio que treme e parece ocupar o coração
que freme quando a melodia do canto de
um pássaro parece ficar..."

- Vinícius de Moraes -

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Por que é que tem que ser assim?

O dia em que a Terra parou. Todo o cotidiano desde abril passado mostra essa realidade. O choro fica entalado na garganta e a saudade remete à falsa estabilidade. E o pior é que você deixou as flores ao pé da cama, sentiu sinceramente, fez o melhor e os espinhos comprimiram o cristal da pureza. Não sei se se descobre que amou desmedidamente alguém que não merecia... Ou a dor da resignação ou do conformismo parece ser maior que o Mundo...

A vida abriga a desconfiança intermitente do que foi interrompido. Nada agora é capaz de dar alento. Você olha para os lados e vê tudo turvo. As propostas nunca te confortam o necessário. A mão que você quer está ao encontro da insegurança da qual sempre teve medo. O orgulho fica abaixo da possibilidade de mudanças. A perda de estímulos, as reticências dos caminhos, a força rebuscada de tentar e começar de novo, tudo isso despenca a perspectiva dissolúvel da concorrência.

A disposição de todos os momentos era o combustível irrepreensível da busca incólume pelo sorriso mais bonito que já tive em meus braços. Como deixar de pensar no derradeiro pretexto dos cinemas, das fugas, dos despropósitos, da encantadora fórmula do improviso.

No meio do trajeto, o autor descobre um novo sentimento que dispensa comentários. Seus olhos (os dela) são múltiplas verves na concepção da sinceridade. E a dúvida é a nossa superfície, mesmo que seja impermeável. Há possibilidades de existir algo tão mais coeso e belo na face do planeta?

Por que é que tem que ser assim? Alguém pode me dizer o caminho da saída? Claro que pela porta da frente...

Desculpem as más línguas. Mas a vontade agora é de dizer tudo. De ser menos sincero e mais feliz. De nada adianta ter a pureza e não dominar o código. As chaves que abriam a porta da alegria mostram um rumo controverso. O de sumir em resmas de papel da mais imperfeita procedência. Avessos acontecem nas melhores famílias. Como dizer a ti que é possível dar certo? Toda Alegria Termina Indispensavelmente ao nomear este momento especial na doce estrada suntuosa. Por isso, não traga opções.

O soluço é o ingrediente que reproduz a agonia vigilante. Faça você mesmo a aposta porque meu coração não aguenta mais indicar os meus votos de harmonia. Eu preciso dizer esteas coisas, porque elas são independentes e se entrelaçam no percorrer indiscreto de uma sensação inédita. O amor avilta a alma no chamamento mais conturbado que o real e o mundo inteligível possam te proporcionar. E o pior é que ainda acredita no mundo sensível... E você?

O que é certo ou errado? Nem sei por onde comecei mas guardo convicções possíveis. Preciso da chama, preciso daquela ausência de mim quando me imaginava nos braços da voz intrigante da certeza. DEIXA EU IR AGORA? PODE ME GUARDAR CONTIGO? YOU'VE GOT SO MUCH...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ruínas em palavras(por Filipe Barbosa)

Sabe-se lá o que da vida seria se não houvesse a graça do erro. O pensamento se confunde com a opinião pelo simples mérito das presunções sobre verdade. Muito se preocupa com causa e efeito. A audiência pública dispensa o processo. Como foi que isso aconteceu? A inadequada frouxidão da consciência crítica se confunde com a incompatibilidade da mensagem emitida. Sempre sobra para quem fala...


A informação se torna relevante à margem da identificação criada com o oscilante custo do raciocínio. A sinergia disposta ao produto jornalístico é fomentada pela história contada com a fundamentação dos fatos. A negação do exposto em sociedade contrasta com a eficiência produtiva dos veículos. A superficialidade da educação se mostra essencialmente categórica a partir da síntese criteriosa dos acontecimentos.


A seleção das notas audiovisuais é realizada através de repertórios espaçados por fatos isolados de suma importância. A seqüência na cobertura vem atribuída de sentido pleno em sua eventualidade. A captação do alvo é a chave do negócio. O jornalista se recorta à contextualização da realidade em seu limite significativo.


A redação e a edição em impressos para rádio acabam por intensificar a exigência no entendimento, na interpretação, a partir da sensibilidade na apuração dos fatos. O apoio imagético consiste em impacto visual dissuadindo em fetichismo, entretenimento e elucubração. A clareza das palavras é o sumo da relação noticiosa. Vide a voz do coração.


O universo simbólico promove a representatividade dos veículos à margem das magnitudes de cada classe social. A verve educativa se incumbe de dar azo à repercussão imediata do conhecimento na formação da cidadania humana. A construção dos textos carece da simplicidade na criação com o uso do discurso direto, manobrado pela objetividade.


A interlocução relacionada ao tópico de emissão-recepção na linguagem, com a intimidade de diversos fatores econômicos, tecnológicos, comerciais, ideológicos, políticos e corporativos na adequação das diferentes maneiras de relação com o público.

Atenciosamente,
FILIPE BARBOSA

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Jazz aux Cinématèque(por Filipe Barbosa)

Il n'y a pas beaucoup des routes en notre vie pour accomplir notre rêve à travers des moment du total éloquence.

Há momentos na vida em que devemos abrir mão das prováveis culpas na consciência para que se amplie o repertório. Um cenário agradável com a acolhida de amigos; ao fundo, o instrumental de uma música excelente à margem do improviso. É o convite para o executivo sem perder o popular.
Essa história que vai ser contada passa pelo indispensável bordado de uma noite de sexta-feira em uma rua de Botafogo. O registro dispensa maiores apresentações. A tecnologia se encarrega de mandar o recado com o comando de nossos pensamentos.
Uma banda eleva ao espírito a felicidade que se celebra aos poucos. A cadência decrescente da luz controlada em baixos lúmens pode ser comparada ao ritmo equivalente das nossas vozes. O que nasce na mesa ali ficou para não se deixar levar por más línguas. As linhas sinuosas do copo em seu reflexo condecoram o elogio que as nossas retinas proferiram.
O jazz incorpora o novo e o tradicional em melodia onipresente, moderna face da voz musicada pelo capricho do saxofone, em sua aparição predisposta por diversas contemplações. O sujeito atravessa um feijão, amigo. E a sua acompanhante pede para que tomemos conta de seus pertences, à guisa do medo material. O preço disso é alto.
A verdade é que lá parecia o nosso quintal. Numa dessas esquinas bem guardadas no lado esquerdo do peito. A prova de tudo isso é ocular. A dúvida do leitor acaba na convicção de que, mesmo na volta para casa, encontramos frestas de amizade para uma última parada. Ali pela estação terminal, sobrou esperança para mais alguns votos de fidelidade.
Antes de qualquer coisa, a pretensão nem era essa. O combinado mora no intervalo entre o Aterro e a Muniz Barreto. O que fica é a vivência, em diversidade, na absorção do repertório. É quase meia-noite e já passa da hora de ir embora. A ausência de informação cria asas nas chances imperdíveis. O moral reluz na alma de suburbanos cortejados pela pausa que a semana deu na rotina. Sorte a nossa!

Arquipélago de Provações(por Filipe Barbosa)

Essa é daquelas sensações que você só tem na estreia. A novidade é o encontro com os gestos inesperados, com a voz no ouvido. O elogio é a proposta mais aguardada no folhetim; a crítica, o pedido por transformações. E nesse desespero mora a alegria angustiante da responsabilidade despropositada. A calma daqueles abraços amplia o prazer, apesar do precipício se disfarçar de poço profundo, conforme a música.
A varanda esmaecida é um convite para a reflexão. O silêncio da chuva acrescenta à luz um tanto da espontaneidade despida de obrigações. Ainda mais: impressiona o sincretismo da roseira, que, ao desvelar os espinhos e as pétalas, confessam o abismo e a tentação para o observador.
Aquela passagem secreta pela porta dos fundos nunca mostra uma saída definitiva. Ela entrega a polêmica do conflito. Um dilema é o passaporte para o (des)encanto, nos mínimos detalhes. A gosto do freguês. Um pingo da tinta preferida alude ao conforto inverossímil do agrado. E olha que a aquarela é fonte abrangente de fascínio, uma vez que a simbiose de cores mostra as áreas infinitas onde podemos flutuar.
A modernidade apresenta a plataforma indescritível dos versos que nunca foram compostos. O progresso é uma estrada perigosa, a questão de escolha compensada pelo esforço da concorrência. Uma roleta-russa de poucas certezas. Simples constatações. A vida é uma ciranda de aprendizados com a repercussão indispensável à formação da experiência.
O pensamento humano se incumbe de contornar as pretensões esporádicas do cotidiano com a determinação. Contrariar a lógica dependeria necessariamente do raciocínio? A natureza cognitiva pede ao intelecto. É preciso destituir o convencionalismo para trazer paz à alma e equilíbrio para o coração. Os desejos são as extensões do livre-arbítrio em comum acordo com a recíproca da consciência. A confirmação da vontade é o primeiro passo para o alcance do bem.
E onde está escrito que não se pode errar? E que tudo sempre vai dar certo? Isso só serve para nos alienar da verdade. A contumácia é o cálculo fiel do escritor na exacerbação de suas convicções. Sem tirar nem por. O fio de navalha no peito dilacerado derrama gotas da afirmação da dor. Poucos descobrem que isso significa a distância exata entre a imagem e o espelho.
A curiosidade circunda pelas brechas dos momentos comuns de dois. Viver é melhor que sonhar. As alternativas são as rotas prediletas do equívoco, costumeiro por dignidade. O tempero a mais na sopa de letras é a quebra do paradigma: a sombra fresca à beira do riacho, um banho de cachoeira, o aroma do bolo na fazenda, o canto dos pássaros no interior (de sós mesmo).
As frases de um poeta ressaltam a clareza preciosa da lápide manual. Talvez, a partir dessa provocação insistente, Vinícius de Moraes evidenciou pensamentos tão verdadeiros (expoentes) concordantes nas seguintes afirmativas: “A hora do sim é o descuido do não... Sei lá, Sei lá... A vida tem sempre razão.”

sábado, 15 de agosto de 2009

Pecado Original

Novos encontros acolhem o medo da estréia num tórrido desespero, entretanto, assim mesmo, se repercutem em outros braços. A pedra que havia no meio do caminho se esqueceu de ser lembrada à margem do compasso do criador. O devaneio é o intervalo entre o desejo e a loucura, no instante da troca, perfeita em sua intensidade.


Aquele território de segurança em que o passeio parecia lúdico vai deixar saudades. E já era. As pétalas de rosas chá fazem parte do feitiço impregnado pelo excesso de vontade. Um abscesso corrói o íntimo com a mesma certeza da água que em algum momento contorna o obstáculo. A vida segue seus rumos e desta maneira se aprende que não há tempo para ensaios. Talvez aí esteja a graça, que a espera não paga.


A fortaleza passou a ser um castelo de areia tão destrutível e frágil como um filhote só em seu ninho. Incólume dor da incerteza. É perene a perspectiva da eternidade. O fio da meada jamais existiu e, em caso de dúvida, favor procurar a agulha no palheiro. A tola voz do coração escancara a porta da rua em gritos públicos de destempero. A visita por que se esperava tem consulta marcada e deixa tão logo de ser a companhia com quem se poderia dividir um ideal.


Bisbilhotando o horizonte é possível vislumbrar a insubstituível missão do recomeço. A posse se transformou em lembrança. O vinho virou água num piscar de olhos. E o prato principal não deixou a desejar a qualquer das sete maravilhas. O tom de agora é de afirmação. E do desvelo dos erros, nas faltas de critério, na dispensa imotivada, no uso indevido das palavras, no contexto desapropriado onde tudo ficou imerso.


Um abismo se firmou como monumento dos 40 anos passados. Oceano profundo de ilusões, das prisões imaginárias, do zelo desmedido, do amor sui generis, com a prova da fina mistura em que a vivência terminou num repente. O fim dos dias se consolida na cegueira que a ferida deixou, sem cicatrizes. Incontestável premissa da razão. Por mais que não fechemos os olhos para a bobina da realidade, os efeitos, em certo prazo, serão consumados.


Silvos intermitentes manifestam um solavanco no peito alado. Divagar pelos ares mais de nada adianta. Um pensamento revida a ação em sua conjectura própria. A entrega dispensa comentários, quando o descanso da mão companheira sobre o meu colo agasalha o coração como luva de pelica. E as emoções foram pinceladas a esmo por uma aquarela encantada, à beira de um ataque de nervos, dançantes no palco da paz.


Os segredos devem estar guardados a sete chaves, em páginas viradas, disfarçadas no sorriso desbotado de meias verdades. Descartados os valores mais puros que, ditos, propuseram uma falta descontente aos olhares concorrentes, indisponíveis ao crédito da procura incessante, o imediatismo recorrente ao conhecimento humano, complexo em cada destaque do pergaminho guardado debaixo do travesseiro e lido toda noite, em forma de delícia em uma prática com o caráter de compromisso com o âmago, na câmara indiscreta dos convivas.

domingo, 2 de agosto de 2009

Outrora

Não há palavras para descrever sua conduta à frente da direção. Palavras comportam a convergência de ideais comuns, arrojados em seus olhares ressaltados, em meio à convenção da sociedade.

O produto é fantástico em sua interpretação. E pouco adianta o alerta na magia. A vida se encarrega do todo, sem interrupções e se apropria da destreza. As idéias são implícitas em suas raízes, com o acinte de todo o formato presente no conteúdo. A fina mistura se propõe ao gosto do leitor, sem eiras.

O Nordeste é a essência do Brasil, o teu destino. Pode abrir os trabalhos! A felicidade não tem preço. E, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, na perspectiva fluminense, se vira a monotonia.

Tudo o que o homem produz parece um pulsar cultural de todo coração. Qualquer interrupção fere o seu senso. E o que mais importa é o seu dentro. O caminho da vitória é o seu repertório, a sua inspiração, o seu entorno.

Cauda essa que você acessa mediante a perspectiva subjetiva de todo o néctar. A estima pelo vinho representa a gota de seus desejos, além da necessidade e da vontade. Poucos frutos cativam o lance dos leões em sua repercussão. Afinal, o que nasceu primeiro: a necessidade ou o desejo?

Coloca a tua vontade à disposição que eu te direi com quem andas. E mais: a essência é decifrar-te em códigos rubros destituídos de conceitos. Nunca se cala diante da dúvida, do novo. Ainda que seja produto de uma realidade aparatada pelas nuances do livre-arbítrio. Então, para que serve tanta subjetividade? Para que você diga sim a si mesmo, aceite a entrega sem elucubrações.

Toda a minúcia pode ser encontrada em seus olhares concordantes, tão inseguros, embaraçados. Não há prece que me faça ser objetivo. Será preciso? Ao olhar através da perspectiva urbana, o ambiente praiano revela-se eterno. Porém é enganoso pensar um cotidiano tendo em vista a criação original. Não há chance, sem eventualidades. E, de todas, o otimismo é a melhor escolha.
Post Scriptum: Esse texto foi elaborado no Bar Informal, em meio a devaneios etilico-gastronômicos, no encontro altamente agradável da turma de sexto período de Comunicação Social, da FACHA Méier.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

"E agora, José?" (Carlos Drummond de Andrade)



O processo de formação da atividade jornalística se estabelece através da interação dialógica de partes provocantes, no que se relaciona à capacidade de questionamento acerca da realidade mundana, predispostas como sujeito e coisa na superfície de percepção do conhecimento.

A história do exercício profissional percebeu, ao longo de seu curso, inúmeras perspectivas e circunstâncias que mostram a complexidade de sua existência. Para ser atuante no segmento das ciências humanas, é importante ter um olhar crítico diante dos momentos engendrados pela evolução (involução) da sociedade, em tempos onde a modernidade observa a crise do lucro como fator predominante ao estado de alerta.

É importante ressaltar que a informação traduz, à luz da concepção humana, um leque de interpretações, no âmbito da lógica disponibilizada a partir do simbolismo e iconicidade convencionados à linguagem e aos hábitos, bem como às crenças repertorizadas no universo imaginário. O fluxo de notícias é fruto da avaliação significativa dos acontecimentos, fato que desobriga a necessidade das exigências acadêmicas, que se fundem no cumprimento dos requisitos legais instituídos legitimamente no campo social.

Vale frisar que em determinado período da caminhada política e da trajetória da imprensa, em plena ditadura, a voz da expressão e a liberdade de conscientização foram coibidas em aceno claro de repressão opinativa. Os militares se sobrepunham aos ideais estudantis, transformando o livre arbítrio em rédea curta.

Os veículos de Comunicação, por sua vez, sempre tiveram papel fundamental na questão dos interesses comerciais e financeiros, no que tange à persuasão político-ideológica, bem como ao culto em prol do entretenimento. A Indústria Cultural não carece de modelos “inalcançáveis” de produção intelectual, haja vista o estereótipo do sujeito pós-moderno se desvencilhar de toda e qualquer proposta nesse sentido. Em contrapartida, a transmissão de cidadania e de criticidade solicita aos mecanismos de ensino o grau mínimo de estrutura, em cujas raízes não encontra solução.

É válido acrescentar que, conforme rege a Constituição Federal de 1988, todo cidadão tem direito à liberdade de expressão e ao respeito de resposta, motivo que calca e enfatiza as atribuições de comunicador a qualquer habitante de nosso território capaz de negociar ideias. Afinal, será que a sociabilização depende, necessariamente, do vínculo educacional nos trâmites da frouxidão democrática do Brasil? Será que, para a execução do pensamento na coletividade, é preciso que paguemos pelo ensino em sua base ora deficiente?

O uso ideal do raciocínio na apropriação da voz da sociedade deve ser visto como premissa para a ação de um jornalista, independente das requisições antes previstas. A queda da lei de imprensa e a não-obrigatoriedade do diploma, decisões impostas pelo Supremo Tribunal Federal, passam longe de quebrar os paradigmas da profissão, pois a extenuante manipulação de fontes é o desafio indispensável ao cerne do Comunicador Social.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Caranguejos na lama praticam antropofagismo?

“A nossa independência ainda não foi proclamada”
Oswald de Andrade
Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928


Em sete de julho de 2009, Michael Jackson ,astro do pop, será sepultado em rede mundial.Segundo nota no jornal Folha de São Paulo, portais eletrônicos especulam se o evento “derrubará” a internet, conforme ocorrido no dia da morte do cantor, quando o site de buscas Google registrara indisponibilidade no acesso a internautas. No mesmo dia, em matéria da própria Folha, a página do jornal Daily News atingia o número de 21,3 milhões de acessos, na cobertura dos desdobramentos desde o chamado para a emergência médica no Rancho Neverland,de propriedade do artista,até a divulgação precisa da hora de seu falecimento.
Aqui no Brasil a cobertura é extensa : jornais impressos, rádios, sites de noticias, canais de televisão e demais representantes da grande mídia divulgam notas sucessivamente, buscando cobrir o que parece ser o maior evento mundial do ano contrastando com a divulgação do resultado das eleições norte-americanas no fim do ano passado e firmando seus propósitos na busca desenfreada de mais informações pelo público.
Ao que se justifique informar a perda de um dos maiores símbolos da música intitulada “popular” mundial em seus quase cinqüenta anos de carreira e de contraditórias atitudes, sempre sob os holofotes da mídia, salta aos olhos o confronto entre os produtos da indústria de entretenimento avidamente absorvida em bits e pixels sites afora e o quase total desconhecimento do universo brasileiro frente ao que realmente suscitaria a alcunha de “pop”,feito pelo povo, no caso o nosso.
“Nunca fomos catequizados Fizemos foi carnaval”.
Oswald de Andrade


Já em 1928, o manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, mesmo germinado nos mais privilegiados berços da elite paulistana, conclamava a produção de cultura de viés próprio,original, reconhecendo a influência direta das vertentes externas, mas conclamando a uma tomada de consciência sobre o processo de absorção de conhecimento.Para isso devorar, pregava, o que de bom lhe aprouvesse, regurgitando novas formas de expressão e percepção de si e da realidade. Hoje, afora as aulas de literatura e linguagem, antropófagos e seguidores dormitam perenes no esquecimento nacional.
“Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval’.
Caetano Veloso,Tropicália.


Mais tarde, na década de 60, as águas da música popular desaguariam nos trópicos, sob o leme de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os mutantes, resgatando em suas embarcações os canibais paulistas, trazendo as cores da experimentação estética e cultural.
Sem renegar a guitarra do rock, os tropicalistas propunham um tempero nacional: a miscigenação de regionalismos e elementos internos, como o forró e o folclore, “girando na roda-gigante” de ritmos nossos e compondo uma palheta de infinitas possibilidades.
Era a transformação do espectador em agente pelo reconhecimento da própria identidade brasileira, sincrética e plural, tecida nos fios da renda nordestina, com o tingimento de séculos de colonização européia e, por que não, indígena e africana.Como diria Caetano, ”não entendemos nada”.A vanguarda virou dialeto para pequenos grupos de discussões teóricas, rompendo com a base popular e generalista.Virou item de enciclopédia.
“E toda fauna flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte”
Nação Zumbi-Maracatu atômico


Se de todo desprezados os manifestos e os projetos de construção de um discurso nacional, apoiado na produção cultural do Oiapoque ao Chuí, foi na lama,mais precisamente no Mangue,que os antropófagos retornaram à vida.Em 1994 era divulgado o manifesto “Caranguejos com cérebro”, precursor do manguebeat, ecossistema dos mais ricos do planeta e que gerou nomes como Chico Science e nação Zumbi.
Sob o estandarte da “parabólica na lama”, os mangues boys buscavam inundar as artérias de Pernambuco e do mundo com a expressão da mais pura música popular brasileira, em ritmos como o maracatu, o frevo e o carimbó, germinada sob as influências do contexto geral ,mas sim, com consciência e método, costurando em retalhos, culturas diferenciadas mas de igual e reconhecida importância :nós , os caranguejos tupiniquins e eles, resto do mundo.
Se portadores de uma mensagem de construção comum, os “manguetowns” não conseguiram acessar as grandes artérias da cultura nacional, destinada tão somente a absorver o fácil , rápido e breve. Permaneceram em guetos, como seus antecessores da tropicália, enquanto a metrópole se tornava a babel midiática em que todos se entendiam porque na verdade não havia nada a dizer.

Hoje, a cena cultural curva-se ante o cenário cibernético.Rompendo fronteiras,deitando por terra legislações de proteção ao conteúdo intelectual e firmando um novo pacto entre público e artista, a internet é o grande agente catalisador dos movimentos artísticos interativos, que o escritor Ferreira Gullar, autor do manifesto neoconcretista de 1959 e uma das influencias do tropicalismo, chamaria de “não objeto”, ou seja, a construção do sentido e da própria existência do objeto artístico ocorre no contato, no processo entre emissor e receptor, exigindo a ação deste ultimo, na produção de conteúdo relevante.
Mais do que espaço onde dizer,é preciso ter o que dizer, reconhecendo no fenômeno da globalização tão unicamente o propósito de estabelecer diálogos entre culturas e reafirmando o contexto da comunicação como o evento de construção de sentido entre partes que se posicionam como agentes. Mais do que um discurso amplamente divulgado,é necessário que se ergam inúmeras vozes e que sejam como tais reconhecidas:plurais, complementares, legítimas,brasileiras.
Resta aos herdeiros dos canibais tupiniquins escolherem se, na selva pixelizada dos dias atuais, se optará pela caminhada pelo espaço infinito de expressões humanas onde figure em igualdade de condições a nossa, ou se iremos em carreata, acompanhar o funeral em carruagem do cantor americano como zumbis pertencentes a túmulos da nossa própria consciência, na referência ao mais famoso videoclipe do artista, este sim, amplamente divulgado pelos meios de comunicação.Os caranguejos continuam a chafurdar na lama, ao sol do nordeste,esperando pelo dia em que, trazidos à tona, passem a existir para o público em geral.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Os tributos a Michael Jackson (In Memorian)

Em poucas horas, mais de um bilhão de pessoas assistirão à despedida do maior astro da música internacional de todos os tempos: Michael Jackson (MJ). Seu corpo será novamente produto para as capas de jornais conceituados e tablóides sensacionalistas. O Shopping Staples Center, em Los Angeles, onde o filho mais novo da família Jackson fazia os últimos ensaios para a turnê em Londres, se transformou em seu memorial.

Aos vinte e cinco dias de junho de 2009: na tarde desta quinta-feira, o coração do cantor se cala, após uma parada cardíaca. Segundo publicação do site oficial do jornal Los Angeles Times, o oficial Steve teria dito que, ao prestar socorro imediato, percebeu que ele não estava respirando. Ele chegou a ser socorrido em sua residência e fora levado às pressas, inutilmente, ao hospital UCLA Medical Center.

Os jornais do mundo inteiro destilam notícias ao (dis) sabor da “contemplação” do acontecimento que, ora tão particular, em se tratando de uma unanimidade de repercussão indiscutível, tanto pelo talento quanto pelos rumos patológicos, que a vida traçou em seu destino. De fato, era uma pessoa ambivalente. Afinal, o que a mídia deveria fazer? Ignorar?

Michael Jackson era um artista completo: intérprete, compositor, diretor de suas produções artísticas. E era, da mesma forma e com tanta intensidade, um ser humano polêmico. Seu sucesso veio à tona quando começou carreira solo, no final da década de 70, logo após seu desligamento do grupo regido pelo pai, Joseph Jackson, também empresário: Jackson Five.

Os veículos de comunicação de massa abusam de negociar discurso em nome da astronômica habilidade da estrela estadunidense em causar impacto com suas decisões públicas: fez de sua vida particular um parque temático de diversões, o conhecido rancho Neverland, em cujos limites ele impunha as rédeas controversas que não teve em sua infância. Além disso, recebeu, ao longo de sua trajetória, inúmeras acusações de abuso sexual a menores de idade, envolvendo a sua vida particular com seu patrimônio profissional. É mais um exemplo crasso da Indústria do Lucro.

A Indústria Cultural sempre fez do ídolo, à beira de sua imagem carismática e de seu desempenho esplendoroso, uma marca que reproduziria um estilo a ser seguido pelos jovens, tornando-se produto fonográfico de alta qualidade e reprodução midiática com a credibilidade do potencial artístico e comercial inconfundíveis.
A morte "precoce" do Michael já vinha anunciada desde a sua declaração de dependência a analgésicos. Ele pregava a sua mutilação por conta da neuropatia, refletida em sua própria análise do rosto diante do espelho, que o pai disseminou, a partir de suas perspectivas perfeccionistas e infundadas de cunho étnico.
Cumpre ressaltar que MJ sofria com as agruras do pai desde criança, uma vez que a disciplina chegava ao radicalismo, na aplicação de regras que, se não fossem cumpridas, seriam castigadas com surras declaradas pelo mesmo Joe.
Realmente, o significado da passagem de MJ traduz a afirmação de sua dor, explicada na trágica decadência de sua carreira, mediante os seus extensos conflitos psicológicos e a eterna cobrança que a imagem comercial lhe exigia, até porque já estava afastado dos palcos há certa feita, muito embora o legado sonoplástico represente uma obra-prima, cuja atualidade permanece intocável.
A doença psíquica do Michael e a sua excentricidade na condição de pessoa pública formavam a dicotomia que o transformariam num anti-herói dos tempos modernos, à margem da conseqüência de suas próprias magnitudes. Outra questão a ser abordada é sobre o compromisso ético da equipe médica que receitava os medicamentos à base de morfina, um deles de nome Demerol, cujo uso teria sido feito por Michael de forma indiscriminada.

Até que ponto chega a responsabilidade de um médico no pronto enfrentamento de seu exercício profissional com a premissa pela vida, tomando como ponto de partida um paciente que já teria declarado publicamente sua dependência de remédios? Onde entram as medidas legais na investigação da morte do artista?

A cerimônia familiar, conforme divulgara a cadeia televisiva CBS, acontecerá no cemitério Forest Lawn, nas colinas de Hollywood, em uma reunião íntima de amigos e familiares, por volta das 14 horas, no fuso-horário de Brasília. O memorial, provavelmente, não terá o corpo de MJ, mas levará consigo, em forma de tributo, o delírio de aproximadamente 17500 fãs, que acenaram à bagatela de até R$ 40 mil por um ingresso em nome da crença do último espetáculo do ícone que encantou multidões, é recorde de vendas de “Thriller” com 41 milhões de discos mundialmente reconhecidos: um popstar digno de grandes ocasiões.

Sem Temer o Futuro (STF) por Diogo Martins

Mais uma vez, a mídia brasileira criou um rebuliço na sociedade, dando maior gravidade a um assunto que não deveria ter tanta importância nem espaço nos veículos de comunicação. A bola da vez foi a queda na obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão, expedida pelo Superior Tribunal Federal (STF).

Agora, a pergunta que muitos fazem: o que muda daqui pra frente? Bem, nada. Na verdade, por mais importante que seja o STF, essa decisão é irrelevante. Isto porque o que valerá em diante é a postura dos veículos de comunicação. Suas políticas de contratação e trabalho.

Assim como no Brasil, nos Estados Unidos, não é obrigatório possuir graduação para exercer a prática jornalística. No entanto, o The New York Times contrata apenas os que possuem o diploma.

Mas o que de fato deve ser analisado é a migração de profissionais de diferentes áreas de estudo para o jornalismo. Para o jornalista e escritor Nilson Lage, como publicou no livro “Reportagem: a teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística”, a mudança acarreta numa perda social. Na publicação, Lage cita como exemplo um físico quântico. Dada a significância à profissão, se o físico desiste de fazer novas descobertas, de aprofundar-se em sua matéria, para produzir textos jornalísticos, a física perderia e a sociedade também.

Os argumentos de Lage podem ser verdadeiros e pertinentes. Mas deve-se dar tempo ao tempo para que questões como essas sejam mais bem analisadas. Afinal, o que não faltam são exemplos de profissionais que desistiram de carreiras para seguirem no jornalismo, desempenhando a função de maneira exemplar. E, ao final de tudo, o mercado não acolherá profissionais desqualificados.

sábado, 4 de julho de 2009

Azeite e Orégano

Aglutina, acompanha, aproveita, acredita!

Barbariza, brinca, beija.

Cuida, cresça, conforta.

Desperta, destoa, divirta.

Encanta, escolha, expira, et coetera.

Fala, frisa, faça.

Garanta, gradua.

Harmoniza, habita; haja motivos!

Insista, incondiciona, inflama.

Justaponha, joga limpo.

Luta, liga, livra.

Mova, mistura.

Nomeia, namora, ‘novembra-se’.

Ousa, ouça.

Persista, proteja, projeta.

Qualifica, queira.

Ressalta, revira e ratifica.

Seduza, simula, salva.

Trata, tenta (até conseguir!), termina.

Una.

Vá, volta, viva...

Xi!

Zuna, zoa, zomba dos problemas, que a vida é curta demais.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Intitulado


“Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.”
Mário Quintana

A criação é o fruto maior de nossas pretensões. O legado que se deixa faz das experiências artifícios necessários ao crescimento, mesmo que outorgado. A vida se eleva ao patamar de sublimidade quando se põe em xeque uma decisão inoportuna. Os desafios carecem de obstáculos, tamanha a riqueza de todo o processo.
Uma obra de arte se espelha no olhar do autor para que nasça, seja por sentimentos ocultos ou por sacramentos do coração. O formato de seus apensos é a cristalina essência de seus desejos; por mais que tente esconder, as brechas estão abertas para que a interpretação, ousada, seja partilhada com a 'irmandade'.
O corpo dos textos, apelo uniforme do pensamento, corrobora o livre arbítrio do poeta diante das circunstâncias amostradas. Para o leitor atento vale frisar que o título nada mais é do que a cereja do bolo, inquietante suspiro da alma, indicando de forma simbólica os índices do desespero das palavras, no que se relaciona ao paradoxo entre razão e emoção (ele carrega de forma bem clara os limites entre a origem e a pulsão pela continuidade do sonho literário, tamanha nobreza há nos recônditos daquelas opiniões).
Há chances nessa caminhada para o tombo, pois nenhuma história recorre aos ensaios. Mas, na hora da queda, em quem se esquivar? A liberdade de expressão condiciona o homem ao fascinante propósito do recomeço, onde se reconhece o verdadeiro sentido do seu significado, na identificação dos prazeres com a responsabilidade ocidental.
A manifestação do conhecimento é a escolha aquiescente ao limiar entre nosso mundo sensível e o inteligível. As letras se perdem na proeza que é o mosaico de oportunidades revestidas em grãos de areia. A vigília às pegadas é a maior missão, observando sempre o jardim ao nosso redor, regando as flores e plantando mais sementes... “Há males que vêm para o bem.”

terça-feira, 5 de maio de 2009

Taberna das Ilusões

Lá é a morada dos sonhos. Como se fosse o palco extraordinário, ainda que nos mostrasse sempre a estreia de nossos ideais. Aquela paz, estimada brisa sobre os olhos fechados, à beira do horizonte de nosso silêncio, pedindo veementemente que o tempo demore a se recolher e que as lembranças não se esqueçam jamais.
Um pedaço de terra e o encanto de cada dia, mais novo toda vez. O símbolo é a pegada que deixamos a cada passagem e o retorno é mesmo a confirmação da saudade. Lá celebramos o amor, a vida, a saúde do corpo e da mente, o beijo inesquecível, a calma do mar, a expiação do mal que impregna os homens, além do apogeu de espírito na fugacidade dessa caminhada.
O espelho do mar é o índice da lógica humana presente na razão natural das coisas. O coincidente reflexo da luz do pensamento faz de nossa existência a entranha mais profunda e enigmática de todos os prestes seres. A preparação força o ânimo a desviar da incerteza e transformar a ignorância em lucidez. Cada contato esconde o poder quase perturbador da solidão.
A vida não deixa brechas para o reaproveitamento das oportunidades. Um lance é único em sua ocasião. E nesse vivenciar proporciona acontecimentos indescritíveis em sua cadência ao histórico de um acontecimento. O repente surpreende a forma visceral do amor e despeja de sopetão as pinceladas intensas da caudalosa experiência embutida na maturidade dos anos a mil, sem eiras, na precisão do universo imaginário.
O segredo do abismo é o medo do fim. Não se espera outra revelação distante da morte. E o revés seria o milagre: renascimento. Dupla face do destino na amostra do livre arbítrio. O resquício de alívio está contido no desperdício do calabouço da ousadia; os riscos são as fontes intermináveis da honra e destreza no nicho das espécies coletivas.
É a verdade da vida. Videiras varrem as ruas, volta e meia, velando o nosso descanso e vidrando o cansaço inalcançável da atividade rotineira em seu repertório espontâneo. Sopro de pressa alerta solo sereno em fúlgidos campos, na fortaleza desse teu abraço estonteante e na alegria da certeza de tua companhia. E nada restou de tamanha comoção...
Sonhos procuram nosso íntimo nas profundezas da inércia. Cinco novas sensações se aviltam em meio ao orgulho da posse indireta de tuas manias em maneiras. E o ocaso não guardou a oportunidade de castigar o esquecimento da nobre causa.
O sabor do beijo é doce e espera a maciez do momento para não trepidar detalhes. O acordo entre as partes reincide na alegria e no respeito de suas atitudes. O estreitamento dos laços incorpora o vigor suficiente para a lucidez da paixão. O relicário do alvoroço na estreia das entrelinhas, com os acordes múltiplos da indiscrição corporal, modifica o cenário fugaz de nossa hesitação (excitação), a priori instigada pelo poder de nossas vontades e escolhas.
Chances próprias se perdem na interminável perplexidade proveniente das vicissitudes cotidianas; o rancor arraiga a devassa e esperançosa contenção do alívio alheio, desviando a colheita dos frutos sadios no jardim da saudade. Leviandade abrupta e sincera.
A sorte aparece como raro trunfo na trajetória do erro. É como a agulha no palheiro, tanta camuflagem do que a verdade possa nos mostrar que, até mesmo a sombra, esconde, sem querer, a inconfortável angústia pela vitória. A garantia prova o esforço na fonte “despedaçada” dos moldes “intactos” de singularidade na história de dia após segundo... A impressão é o que fica insistentemente doce. Lá não é local de acordar.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A olhos vista

Uma obra de arte não se compreende em meros lances de sorte. A vida recria o milagre da existência na eventualidade sorrateira do destino. Quem espera nem sempre alcança, se no meio do caminho perde a razão em questionar um argumento corrompido.
O óbvio é a cautela na passagem do tempo pela presença da tal da paixão inesperada à beira da estrada. À margem de qualquer sombra de dúvidas. Distante do conhecimento, de causa, de verdade, de si mesmo. A lucidez brinca com as nossas sensações ao receber os estímulos de prazer na ousadia da controvérsia.
O contraponto é esperado na medida do exagero da anteposição dos contrastes, no desvio de atenção pelo sopro do vento ou, ainda, a sombra da chuva esquecida do silêncio maculado.
A felicidade é o estado de espírito, contencioso em sua alegria desesperada de tanto se guardar, para a pessoa e momento certos. O dia brilha em alto e bom som, na melodia daquela simples canção do outono passado. E o segredo nunca deve ser contado. De que vale a mais preciosa amizade se o detalhe se perde em meio ao absurdo da precisa escuridão?
Engana-se aquele que aguça em sua vivência a ininterrupta paz do coração... O sonho é a elevação da alma a uma espécie de estágio superior. O resultado é o produto das circunstâncias no cruzamento do amor com a vontade agraciada de saber, à altura da possibilidade de vitória e desenvolvimento da forma plena de manifestação do outro, espelho revolto da incólume delícia que se demonstra na evolução do espírito no alcance do interior, destituído de presunções, precauções, apenas a intensa face da serena amplitude do verbo poder.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Coluna:Cinema .por Alexandre Bizerril

Eu não sou pixote
“Bom dia, boa tarde e boa noite!” Hoje vou comentar sobre um filme que passou no domingo, dia 15/03/2009 – mais precisamente na TV Brasil. “QUEM MATOU PIXOTE?” de José Joffily (DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA) de 1996, com Cassiano Carneiro (Fernando Ramos da Silva / PIXOTE), Tuca Andrada, Joana Fomm, Roberto Bomtempo, Maria Luisa Mendonça, Luciana Rigueira, Paulo Betti, Antonio Abujamra.
O filme conta a história de Fernando Ramos da Silva, um rapaz que quando criança, foi descoberto na rua por uma produtora e interpreta o personagem titulo do filme “Pixote – A lei do mais fraco” de Hector Babenco e depois da fama meteórica como ator mirim, não consegue mais emprego. Para ele, a única saída é entrar no mundo do crime, ou seja, se tornar novamente o “Pixote”, apesar de relutar contra o estigma da personagem que nunca foi esquecida quando as pessoas o vêem.
A falta de emprego para os jovens que não possuem experiência é apenas um dos pontos a serem analisados no filme. Um momento bem interessante do filme é quando o Fernando é preso pela primeira vez e as pessoas e os jornais relembram a participação dele no filme e simplesmente o detetive o expõem as câmeras no pior momento dele, como se fosse um animal que foi capturado. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência, pois o filme é baseado em fatos reais. A visão nada romântica da vida de crimes, que apesar de ter dinheiro fácil o marginal paga um preço por isso e que na maioria das vezes não é tão barato – a liberdade ou a morte.
O filme tenta ser lúcido e trazer questionamentos para quem o assiste com um olhar um pouco mais critico em relação à sociedade. A idéia é provocar, e não trazer respostas fabricadas por uma industria do prazer onde é “lindo” ser bandido e falsificador, como no filme que foi passado pela TV Globo na terça-feira passada. Um filme que para se desculpar com quem o assistiu, diz ser “inspirado” em fatos reais. Ou seja, uma boa desculpa para não passar os piores momentos de um criminoso que não esteve “tão bem” o tempo todo, como é passado no filme inteiro.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Que atire a primeira pedra,quem pode,no alvorecer da pós modernidade,gabar-se de sua ética inabalável,ante os percalços da vida?Quem pode olhar para si e para os outros e ter a certeza de fazer exatamente o correto, o que de melhor poderia por aquele que esta ao seu lado?
Quem não treme de medo, ante a entrada do homem esfarrapado no coletivo, acompanhando seus passos com os olhos,aguardando o momento em que anunciará o assalto e que cala-se envergonhado quando este lhe pede um trocado,uma moeda para pagar o remédio ou o prato de comida?
Aquele que não duvida do menino no sinal , a efetuar malabarismos com seu corpo franzino,aguardando avidamente que se anuncie a aprovação ao espetáculo,traduzida em moedas de dez e de vinte, com a qual comprará seu café da manhã de ontem,mas será mesmo que esse dinheiro,que transborda e se perde nos nossos bolsos, vai virar lanche,ou virar cola,ou quem sabe pior,vai saber meu deus o que ele será capaz de aprontar?
Qual o cidadão respeitável,não acompanhou impaciente, o show dos malabares,ou o desfile dos cadeirantes, com um olho na janela e outro no sinal?
Voltamos nossos rostos para coisas mais apresentáveis,vitrines lotadas de produtos onde também nos exibiremos, catálogos coloridos onde persistem promoções até o infinito e que serão com certeza a garantia plena de nossa total satisfação até o próximo segundo?
Não pensamos no outro como a um igual porque somos únicos em nossos anseios e necessidades e não somos responsáveis pelos desmandos divinos.Divinos?
Somos nós que permitimos a cada ação,a cada escolha,que a segregação se perpetue,em nossa cela dourada,onde subsistimos em regime de fome,aguardando que a propaganda nos entretenha e traga a felicidade,em embalagens transparentes.
Somos nós que nos isentamos de culpa, a cada não que damos,quando nos esquecemos que também somos o outro,do outro lado do cano da arma ou da janela, na contramão do olhar que desviamos.Também dependemos da compaixão alheia.Em algum aspecto,somos todos indigentes, adoentados e perdidos, recolhendo os restos de nossas verdades,enquanto assistimos ao desfilar de nossos conceitos,destruídos ao chão ....Família,respeito,afeto,compaixão,são entidades tão esotéricas quanto distanciadas de nosso cotidiano,uma vez que estamos ocupados demais...
Que nos importa o flagelo alheio se nos abstraímos da nossa própria dor,pois não voltamos nosso olhar para o que de fato somos,humanos?Antes,buscamos perceber no reflexo turvo do espelho mais próximo, aquilo que acreditamos ser,deuses,incapazes de cometer alguma injustiça e passiveis de todas as bênçãos,por que somos incomparavelmente perfeitos,impassivelmente cegos e desmesuradamente surdos,tal e qual estátuas de bronze expostas na calcada,buscando a admiração alheia que nos eleve o brilho falso de nossas virtudes enquanto ao interior,uma massa compacta de gesso fragil,comprime-se com nossas subjetividades reprimidas tao fundo que nao mais as enxergamos,ate que esquecamos de quem somos.Mas quem somos?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A busca pelo divino

Da emoção que aflora,na busca pelo que lhe é vital,seja nos bordados da fantasia,no grito que fica na garganta ,no eco das músicas de carnaval e nas lembranças,bagagem de sentimentos que dão origem a tudo o que se é,ainda que não se tenha consciência disso..Mas afinal o que nos move enquanto indivíduos,na ânsia de vivenciar uma paixão?
Do grego pathos,doença,apaixonar-se era para os antigos,contemplar o divino,na figura dos deuses do olimpo,atribuindo-lhes perfeição e devotando-lhes gota a gota cada minuto da existência.
Para a ciência,a paixão é a transferência para o outro de traços da própria personalidade,idealização,devoção,resgate de dores profundas pelas mãos daquele que o salvará do desconhecido de si mesmo,do mergulho nas próprias profundezas,sem saber onde terminará o caminho...Olhar para o outro,antes de olhar para si,compensar as próprias fraquezas na imagem narcísica de um objeto de desejo ,impossível posto que irreal,mas infinitamente belo aos olhos daquele que se deixa seduzir,uma vez que encerra a magia criada pelo próprio sujeito que o adorar...
Mas à lógica não cumpre explicar a necessidade humana de reverenciar o belo,das mais diferentes formas,tendo a arte como projeção essencial e a paixão como movimento...Ela é a respiração dos corpos,na evolução da dança,é o grito da torcida no momento do gol,é o toque das mãos no calor da luta,é a conjunção de palavras na oração,é o reflexo das cores na retina,é a composição de sons,na percepção da musica...é,antes de tudo,a busca de um sentir que vá além, que alcance o inimaginável,percorrendo distâncias infinitas,na imagem que se contempla ou na expressão dos sentimentos...Apaixonar-se é antes,a busca do divino no interior de si mesmo,construindo laços de significado que vão trançar-se não somente ao tangível,mas ao impalpável ...É tocar os céus,é grito de dor e êxtase,é lançar-se a mares desconhecidos,é interromper o curso do tempo, é atrever-se ao sim,contrariando o não do mundo,é tornar-se parte do absoluto e indecifrável mistério de existir.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Voz no Ouvido

Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2009.
Pelo nascimento de meu afilhado Gabriel, cujo nascimento proporciona tamanha alegria. A ti, com imenso carinho:
É a corrente da vida. Tantos corações pulsando ao mesmo tempo, com aquela certeza que só os olhos comportam. O fruto é singelo e mostra sua força no sorriso despretensioso pela chegada de um ente querido. Novos laços. Ao pensar nessa conjunção, faz-se a voz embargar as palavras. Basta a felicidade: o significado da união vale a apreciação do destino. Traços sinceros resgatam a responsabilidade, ora inexistente, daqueles que devem ter cuidado, agora, pelo resto de suas existências.
A necessidade faz a hora. As experiências caçoam da gente, mostrando que deste plano nada levaremos. O que fica é o cheiro da surpresa, o momento dos encontros e o bem-querer.
A canção da vez é a de ninar. E que a nossa presença permita a configuração de parte importante de teu berço. Teus olhos fortes reparam um mundo próprio, inédito ao conhecimento, que requer na paz tua maior motivação.
A saúde é o principal estímulo para a renovação de nossos conceitos. Naquela tarde de janeiro de 2009, o céu estava azul e intenso, como se abrisse espaços para a sua chegada. Aos meus passos longos se unia a vontade de vislumbrar essa luz que te protege. Não havia neste dia 30 algo que me fizesse mais feliz. É uma recompensa de Deus.
Que o sabor de sua jornada se fortaleça através de nossas preces, antes mesmo que possamos dizer a ti o quanto é amado e querido no meio de nós.
Do padrinho "dindo" Filipe para Gabriel.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Marcha à Ré

O repouso de cada um se confunde com o sabor amargo de uma derrota. O retorno da pista são dois passos atrás no caminho de nossos pés. Nada nunca foi tão igual à ausência de mim. Meus apelos congelam cenas inéditas perto de um final feliz. É o pretérito-mais-que-perfeito. Sobras de sonhos na imensidão das expectativas, uma ronda de inspeção pela nossa euforia, a audácia encontrando a ousadia. Tons interferem na distinção da retina: as cores padecem na eternidade de um céu azul, símbolo da pureza, expoente da realização crepuscular de dias porvir. Depois da tempestade vem a bonança.
Não há espaço para o quase. Sem querer esqueço os segredos, guardando-os seguramente em ti. Semeando promessas. A intuição processa todo o som da saudade no silêncio do vento. A natureza é a maior prova de que não estamos sós. E a chuva aparece como predestinada a contornar toda a inquietude de nossas evidências. Depois dela, nos espanta a calmaria. As sombras aumentam nossa discrição, com as correspondências impiedosas das amostras de nossos sentidos. O sopro é a marcação inusitada do desconforto. A malícia atravessa a rua pedindo passagem sem olhar para trás. Mal sabe do perigo.
Os sons da praça central entoam a obediência, escalam a disciplina como expediente próprio de cada aula da vida que se conta presente em uma esquina. Os intervalos de nosso trabalho, enquanto se fazem descanso, transparecem a observação mais comprometida com o sucesso das idéias entusiasmadas. E não há controvérsias.
Pausa para uma água e banheiro. Ouve-se pelos corredores os maiores gritos da surdez humana: em tempos de fragmentação, qualquer fiasco é motivo de repúdio. A partilha se esqueceu de existir, muito embora de cada pão se faça o sustento contaminado pela fruição capitalista. O discurso corre aos nossos olhos. Sentimos as mudanças pelo frio na barriga do medo da troca. E nem vemos o troco. Em meio às vozes uma trepidação regular se anuncia: "dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó". Quem diria que nas vísceras da crise encontraríamos um esboço de paz?
O nome da rosa está escrito na pauta das contas de um cidadão nacional. Ele tira leite de pedra e dorme no trajeto de casa ao trabalho para dispensar suas rupturas. Se não estiver contando estrelas mais tarde... Os dez mandamentos são fabulosos por natureza, dependendo do ponto de vista. Já larguei os óculos faz tempo... Já desisti de contar vantagens: isto é falso arbítrio. Levo fé no pôr-do-Sol inquestionável, na conquista de hora a hora, respirando fundo como se fosse a primeira de muitas.
A âncora pesa e dá equilíbrio. Depende de como você olha para ela. Até mostra o caminho, de acordo com a posição que ocupa. Nosso eixo representa a impressão de detalhes precisos na decisão de suas práticas. "O amor é a beleza da alma". É infinito tecer a poesia do coração no espelho de mim que acabei de conhecer.