terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Jóia Rara

É praticamente um toque de Deus. Como se fosse a transcrição de todas as coisas boas naquele tom de pele. O fortuito acaba por inesperado, tantas poucas vezes podem se ver rindo com tanta espontaneidade. Minutos preciosos e o encanto se faz a esmo. O encontro das águas já se deu e as vísceras não passam da origem fisiológica dos sentidos. Os que provocam as sensações das mais agradáveis.
De tanto desencadear esperas, forçou a passagem da necessidade sem que se pusesse à disposição. O diamante se lapida pelo balanço constante das ondas: a própria erosão se compromete na expressão dos ditos e na confecção dos ideais. Amar-te é tão mais fácil na presença tua em núcleo, essência de minha emoção, já que o contato expresso me remete ao êxtase de tuas alegrias muito vigorosas.
Faço de tuas palavras as minhas. Não há porque ser diferente. Não tem de ser diferente. É a pressa a inimiga da perfeição; menos a vontade excessiva. Essa aberração se constitui no teor destemido da pretensão do pensamento. A alma comporta o delírio deste meu pretexto. E que a arte se mostre confortada no gosto doce de teu encanto, tão simples quanto oportuno.

Jóia Rara

É praticamente um toque de Deus. Como se fosse a transcrição de todas as coisas boas naquele tom de pele. O fortuito acaba por inesperado, tantas poucas vezes podem se ver rindo com tanta espontaneidade. Minutos preciosos e o encanto se faz a esmo. O encontro das águas já se deu e as vísceras não passam da origem fisiológica dos sentidos. Os que provocam as sensações das mais agradáveis.
De tanto desencadear esperas, forçou a passagem da necessidade sem que se pusesse à disposição. O diamante se lapida pelo balanço constante das ondas: a própria erosão se compromete na expressão dos ditos e na confecção dos ideais. Amar-te é tão mais fácil na presença tua em núcleo, essência de minha emoção, já que o contato expresso me remete ao êxtase de tuas alegrias muito vigorosas.
Faço de tuas palavras as minhas. Não há porque ser diferente. Não tem de ser diferente. É a pressa a inimiga da perfeição; menos a vontade excessiva. Essa aberração se constitui no teor destemido da pretensão do pensamento. A alma comporta o delírio deste meu pretexto. E que a arte se mostre confortada no gosto doce de teu encanto, tão simples quanto oportuno.

LICENÇA POÉTICA - Capricho do Destino


CAPRICHO DO DESTINO [IPSIS VERBIS]



Certa vez, ouvi um pedido do coração e me pus a atendê-lo. Era a riqueza de um sentimento original e poderoso. Conheci o desespero da espera consciente, do apelo esquecido por muitos e da fuga absorta em seu núcleo primordial.
Em consonância com o posicionamento do homem na sociedade, procuro sempre exercitar o compromisso com as palavras. Elas me chamam para sair e eu não exito. Sem precedentes. Na verdade, eu dou as mãos a elas e deixo de lado a solidão que sempre bateu à minha porta.
Cumprimento-te com a saudação cordial de um sorriso que confia na tua resposta. É que a distância de idéias é como a refração da luz do Sol: espalha toda a lucidez em raios sós. E o esconderijo da criatividade é o sossego do isolamento. A essência está na ausência de controle. Completamente. Você manifesta todo seu estado emocional na desventura de sua eloqüência sadia.
O tempo é o marcador exato de nossas experiências. Os matizes, que são produzidos através de nossa grande viagem da vida, representam a legitimidade evidenciada pelo percurso do reconhecimento. O valor das instituições está na fundamentação de seu legado, a partir da informação consolidada e disposta aos pressupostos legais.
O valor da sina se revela na comoção provocada pelos anseios daquela hora, a da agonia do raciocínio, compensando o estarte da paixão e a beleza que é viver ao lado teu. Condecoração. Esta alegria, querida, expõe trocas impensadas de atonicidade, bem como as produções ávidas pela gradação de suas pinceladas, tão abundantes e inócuas.
Novos apensos da celebração humana registram a leveza dos elogios, os perigos de uma relação estritamente passional, a clarividência de dividendos numerosos. A conta é justa, uma vez que o aperto parece irrestrito. A vida é um processo paulatino, em cuja cadência se situa um almejo da calma, mediante teus sublimes gestuais, tão naturais.
Bastasse um beijo teu e eu, neste intervalo, perderia a pureza de menino e acresceria a grandeza de tu' alma à minha, sem pestanejar, com o anseio de quem aguarda um novo mundo a sua volta, mesmo porque a esperança é a companheira de todas as horas, face aos conluios da modernidade e os efeitos pronunciados pela “delícia da exposição ao Sol”. O silêncio que quebra todo um explícito grito, implacável em sua existência, amparado pela candura das penumbras de teus apelos, espraiados, andarilhos, pretendentes, poderosos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Crônica (por Alexandre Bizerril)

Em uma tarde de sábado...

Em uma determinada tarde de sábado, eu e um amigo estávamos em minha casa escutando algumas músicas de que gostávamos e, ao passarmos para os DVDs musicais, começamos a ver e ouvir um cara de que gostamos muito – Ray Charles – e surgiu uma conversa com relação a preconceito racial, mesmo sem percebermos que o conteúdo da conversa era sobre isso.
Esse amigo estava a me contar um fato engraçado que aconteceu com ele quando foi a um baile funk, mas não desses de que ouvimos tanto falar, tocando “proibidão” e com mulheres grávidas a toda hora e a divisão de espaço – o famoso "Lado A, Lado B". Era um local mais comportado, diria até mais elitizado. Enfim, o fato curioso aconteceu na fila para entrar nesse local. Ele estava com mais alguns amigos e amigas, mas era o primeiro depois de um grupo de pessoas que começaram a olhar para ele com certa estranheza e diria, até aversão. Mas o que mais chamou-lhe a atenção foi uma frase que um “senhorzinho” que estava no grupo disse para uma “madame” que estava com ele. Foi algo, “tipo assim”: “- Brincadeira, eu que sou freqüentador assíduo desses bailes e agora tenho que aturar qualquer um entrar, hunf!! Esse baile já foi mais bem freqüentado”. Com certeza ele ficou muito chocado com isso, afinal era a primeira vez que passava por uma situação de discriminação, mesmo que indiretamente, mas não retrucou. Ele estava em menor número e, nos dias de hoje, não vale muito a pena tomar satisfação por coisa tão pouca e acabar com um buraco no corpo ou dentro de um buraco.
Pensamos e conversamos horas a fio sobre isso e por fim percebemos que qualquer um pode ser preconceituoso, independente de idade e de tom da pele. Ah! Desculpe a minha falta de atenção, caro leitor. Eu esqueci de descrever o meu amigo e o local para onde ele foi. Ele é branco, olhos verdes, cabelos encaracolados – pelo menos à época do fato e tinha lá pelos seus 20 e poucos anos e estava com uma amiga negra e um loira e outro amigo pardo. Estava entrando em um baile de charme e o cara que estava na fila era um rapaz de uns 30 e poucos anos, negro, com uma camisa com os seguintes dizeres “100% negro”, usando black power e estava com um grupo de pessoas com o mesmo tom de pele. Ficamos um pouco decepcionados pelo fato de que se trata de uma pessoa que faz parte de um grupo amplo e que foi duramente discriminado e tratado como “ralé”. Lutaram por igualdade e não por dominação e isso é o que não deve ser esquecido.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aos que se movem

After a long time,back again...

"...Aos que se movem,
resta o desafio
de compreender o caminhar
como uma conseqüência do viver..
É necessário o movimento,
mesmo que involuntário
do indivíduo, para que o ar circule
por sobre todas as coisas
e ponha em marcha o tempo
que será sempre outro.
Ainda que as mãos tentem
em desespero retê-lo
ele avança, célere,
pondo abaixo
todas as estruturas estabelecidas.
Ao seu passo,o mundo gira
e a cada momento
a estrada desaparece
simultaneamente ao contato dos pés.
Não há como retroceder....
É preciso,contudo,
manter-se suficientemente distraído
para perceber as engrenagens do
mundo,
em continuo rearranjo,
tecendo finíssimas linhas invisíveis
com as quais conecta
as vivências de cada um
na tarefa delicada
de constituir aquilo
que chamamos existência...
A cada ação corresponde
um constante rearrumar
de sensações e o universo
que se vislumbra
jamais repetirá sua composição.
Há que se prosseguir
enfrentando o silêncio dentro de si
e aceitando o fato
de que as respostas jamais virão..
são as perguntas que sempre irão mudar...
Viver é sensibilizar-se
É sentir a respiração do mundo
e fazer-se parte
do movimento que é elementar a tudo.
..existir não é fato,é processo ..."

Presságios da Alma

É uma compulsão. Um estopim dentro do meu coração. Acordes soam na proeza de cada gota que fraqueja das folhas, após a tempestade. Se engana quem pensa que uma grande obra nasce do silêncio, em meio ao nada. É a manifestação da natureza, irrepreensível, em seu ciclo espantoso, na cadência espontânea de suas transformações.
A escrita é a união dos nossos sonhos em palavras oportunas. A interpretação dela é o entendimento de nossos sentidos a partir da reunião de vozes imaginárias. O ideal é a representação de nossos desejos. E a razão é o que restou de toda a leitura. As arestas do caderno, amareladas pelo uso, significam o prazer ingrediente de cansar as mãos até o sono bater. E lá se vão tantas da madrugada.
O doce encontro entre a vontade e a satisfação se desenha no formato dos textos, irracionais, especiais, em si mesmos retrato de autor. Foge à lógica da realidade o precipício dos ensejos, uma vez que o mergulho acaba sendo inevitável. Presságios da alma. A coordenação motora se despe na contestação do pensamento às normas ditadas. O que nasce primeiro: a obra ou o (pre)texto?
Vivendo num oceano profundo, na companhia de nossos sentidos, a admirar a infinitude do horizonte, como se fosse a transposição da eternidade. Esta que não existe para a presença física, muito embora me pareça equivocado conceber outra aquiescência para o poder das letras em nossa infinitude de sensibilidade sem tamanho.
Contiguidade expressa do meu ser. A observação é a origem da arte, na medida em que proporciona o efeito da perspectiva, promovendo o feitio recortado, corrente, passional. Minha vida de nada seria sem a pretensão dos impulsos. E a felicidade, suprema em toda sua radiação, prestaria contas com o quase sem deixar recados. Metade da maçã expressa o gosto da delícia que é acordar. O sonho é um despertar do peito, encarecido tropeço do pensamento, ao deixar de acontecer. A protelação é o esquecimento da ousadia. E a coragem prescinde, sim, de afirmação. Da dor de não lembrar, do amor que se espaça, da diluição dos corpos entre os olhares, da exposição insinuante deste furor que insiste em persuadir o óbvio.
O alvoroço de frase a frase, à margem da propriedade da criação, simboliza o curso religioso da compreensão do novo no mundo, emergente contorno da visão sobre o exílio de si, contraste imediato ao burburinho entorpecente da cegueira humana. O espelho, meu, é a identificação da conseqüência provocada no próximo diante do propósito, consumado, constituído no julgamento do discurso engajado, seja no âmbito da poesia ou da dissertação.
A voz da opinião é o retrato fiel da intensa forma da liberdade. O índice do meu interior tem um quê de simplicidade, um porquê de curiosidade e um “como o quê” da fome insaciável de saber, normal, até na condição insubstituível de expressão do que não se quer dizer após os confins da beleza de dentro de ti, de que lembrei na hora de me esquecer.

sábado, 20 de dezembro de 2008

NA TAL DA FESTA TUPINIQUIM

COSTUMAM DIZER QUE EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI. SERÁ, QUE, EM PLENA MODERNIDADE, LOGO OS PIRATAS SERIAM OS DONOS DO MUNDO? PARALELAMENTE, EM TERRA BRASILIS, É POSSÍVEL QUE DONO DE MORRO SEJA O POSTO MAIS COBIÇADO DE TODOS.
PARECE COISA DE MALUCO: A CEGUEIRA É TÃO VASTA QUE SE TORNA MAIS FÁCIL FINGIR QUE NÃO VIU OU ENXERGAR O QUE NÃO EXISTE. HOJE EM DIA, PADRE É POLÍTICO, EM NOME DE JESUS. BANDIDO VIROU POLÍCIA DA COMUNIDADE. SINÔNIMO DE MILÍCIA. E A POLÍCIA É A "FORÇA NACIONAL".

O QUE SERIA DE NÓS SEM ESTA FORÇA QUE VEM DE BERÇO ESPLÊNDIDO?

JOGADOR DE FUTEBOL É FUTURO TÉCNICO, APRENDIZ DE EMPRESÁRIO OU, NA PIOR DAS HIPÓTESES, ACABA COMO COMENTARISTA. E NESSE CAMPO, A MÃE DO ÁRBITRO É QUEM MAIS SOFRE. Ô, PROFISSÃO INGRATA!
A TEORIA MATEMÁTICA AFIRMA QUE "A ORDEM DOS FATORES NÃO ALTERA O PRODUTO". SERÁ VERDADE? NUM PAÍS EM QUE CANTOR VIRA MINISTRO E O CARTÃO CORPORATIVO ENTORNA O CALDO DA SOPA, PODEMOS ACREDITAR EM ORDEM E PROGRESSO?
AINDA ENCARAM CONSCIÊNCIA POLÍTICA COMO MOTIVO PARA BANALIZAÇÃO CÍVICA OU PRODUTO HUMORÍSTICO. QUEM SE ENGANA COM O JARGÃO "NÃO VOTE NO GABEIRA! ELE FUMA, SENTA E CHEIRA" PRECISA DE UMA DOSE DE TARJA PRETA (SEM DIREITO À LEITURA DA BULA) OU DA REFORMULAÇÃO DO SISTEMA EDUCACIONAL. NÃO VALE QUALQUER PARCIALIDADE NESTE PONTO, APENAS RECORTE DE UMA REALIDADE RECENTE.
TUDO É PASSAGEIRO, MENOS O MOTORISTA E O TROCADOR. OS COMPANHEIROS VÃO E VOLTAM DA ROTINA MASSACRANTE TORCENDO PELA ESTRÉIA DE RONALDO NO CORINTHIANS. FALTA O PÃO DE CADA DIA, MAS EXISTE A FELICIDADE PORQUE O "FENÔMENO" É DO TIMÃO. A MULHER VIROU SALADA DE FRUTAS SEM CERIMÔMIAS.

ATÉ QUE PONTO A MÍDIA CONTRIBUI PARA O ESTADO DE CONSCIÊNCIA DA POPULAÇÃO?

É CERTO QUE A MÍDIA APERTA A MÃO DO "COMPANHEIRO" ESPERANDO O DINHEIRO QUE SAI DOS IMPOSTOS EXCESSIVOS OU MESMO DOS PROGRAMAS ASSISTENCIAIS, COMO O PROUNI E O BOLSA FAMÍLIA. OS POLÍTICOS TROCAM DE PARTIDO COMO QUEM TROCA DE CARRO, TODO ANO TEM GENTE NOVA E UM DIFERENTE. PIPOQUEIRO VIRA POLÍTICO, BICHEIRO SE TORNA POLÍTICO, CANTOR SE TORNA POLÍTICO.
PARA ARISTÓTELES, PENSADOR GREGO, "O HOMEM É POR NATUREZA UM ANIMAL POLÍTICO". ENGRAÇADO: POR QUE O INVERSO NÃO FUNCIONA? UM POLÍTICO NÃO SE TORNA JOGADOR PROFISSIONAL, PIPOQUEIRO E AFINS.

O ARGUMENTO SE ENCONTRA QUEBRADO.

E, NO FINAL DAS CONTAS, POLÍTICO AINDA VIRA CELEBRIDADE E A TELEVISÃO, PALÁCIO DO PLANALTO. O QUE NASCE NA MESA, FICA NA MESA. E NINGUÉM VAI PRESO.

VALE MESMO PENSAR QUE A ESPERANÇA É A SEMPRE A ÚLTIMA QUE MORRE.

Cinema (por Alexandre Bizerril)

"Família é família. Sangue é sangue." Até que ponto?


“Bom dia, boa tarde e boa noite!!” Meus amigos, desculpem a demora em postar um novo texto, mas vida de estudante universitário é dura em todos os sentidos. Bem, não estou aqui para escrever sobre minha vida, apesar de achar que a vida de muitos dos que conheço daria um bom roteiro, mas no momento estou a falar sobre filmes. O dessa coluna me remete às tragédias gregas. Trata-se de O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2007, EUA/Inglaterra/França), dirigido por Woody Allen e com atuações de Collin Farrell, Ewan Mcregor e Tom Wilkinson.
O filme conta a história de Ian (Ewan) e Terry (Collin), dois irmãos que passam por problemas financeiros e pedem ajuda ao tio, porém este pede em troca um grande favor “que só poderia ser pedido a alguém da família”, afinal “Família é família. Sangue é sangue”, nas palavras do próprio “Tio Howard” (Tom Wilkinson). Engraçado pensar até onde podem ser mascaradas as verdadeiras intenções das pessoas. Saber distinguir o que realmente as movem do que elas querem mostrar para as pessoas a sua volta. A história se assemelha ao que poderia ser uma profecia de Cassandra – bela personagem da mitologia grega que foi abençoada com o dom da profecia e, posteriormente, amaldiçoada pelo deus Apolo, por não aceitar seu assédio. Ou mostrar um pacto com o diabo em troca de bens materiais (Fausto). Até onde você pode ir pela “família”? Aliás, é somente pela família que as pessoas podem se sujeitar a quebrar algumas das regras primordiais de convívio em sociedade? É evidente que as diferenças (caráter, ética, limite) dos personagens principais existem, mas, apesar disso, são mantidos pontos de convergência que fazem com que os espectadores percebam que eles são irmãos.
Allen tem tentado mostrar o lado obscuro da natureza humana, a verdadeira vontade que move o ser humano e, em algumas ocasiões, ele foi feliz como em Match Point – muito em virtude dos bons atores que escalou –, porém, em Sonho de Cassandra, o elenco, apesar de alguns bons nomes, deixa um pouco a desejar, principalmente a partir do pacto feito entre o tio e os sobrinhos. Nesse momento o filme mostra mais o lado cômico do diretor, incluindo as caras e bocas de Collin Farrell na passagem de momentos alegres para tristes. Tirando isso, o que fica mesmo é a oportunidade de ver Woody Allen dirigindo um filme de gênero diferente do que o consagrou.

ESPELHO

VOZ INTERIOR


“O nosso universo imaginário só não desconstrói aquilo que ele não constrói...”.

Filipe Barbosa.


Parecia mais uma quarta-feira daquelas semanas de final de ano. Era mais do que todos viam. Um repertório pleno de fundo passional, um caminho inocente na viagem pelo novo. A pedra que divide um rio. Enxurrada de emoções.
Aqueles olhos demasiadamente curiosos provocaram em Enzo um fascínio espantoso, coisa por que nunca imaginara passar. Um bombardeio interno, a sensibilidade sobre sua própria razão, o sem-querer vacilante que pede na hora mais incerta o subterfúgio de suas forças, aquela ação inesperada.
Tudo começou naquele tropeço despropositado em que o encontro fora inevitável. Carregava consigo seus livros de Artes e um amor consumado pela arquitetura, à medida que suas opiniões se manifestavam desconexas e oportunas. Um minuto se passou, e, nesta fração, Enzo já conheceu algo que em anos passados nunca percebera tão sedutor. Seu nome: Cassandra. Teria perguntado em meio ao intervalo entre os joelhos flexionados e a coleta dos livros, espalhados, e seus muitos lápis, o que, após algumas perguntas, saberia que alimentava uma paixão incondicional pela criação.
Apenas um esboço de sorriso. Foi o suficiente para que o rapaz, de origem suburbana, levasse um troféu para casa, como quem vence um campeonato de futebol universitário. Todo o encantamento produzido é a fórmula singular de um sentimento provocado pela especulação da verdade, a inevitabilidade da vontade. Por mais que não se espere por isso, vem à tona como avalanche. Fenômeno interior, cuja voz pairaria em seu inconsciente, promovendo desejos súbitos de transformação, da liberdade de expressão do sentimento presencial, imprescindível a partir daquele instante, na tal da imprevisibilidade dos acontecimentos.
Aqueles passos se interferiam, sorrateiros, e demonstravam a pressa de quem se mostra sedenta pelo conhecimento. E o cheiro do perfume, singular pelo gosto peculiar, cativo, lisonjeando-lhe o olfato pela chegada do amor correspondente, lúcido, como a estrita forma de entender como a continuidade do ser pode vir acompanhada de um lapso virtuoso do destino, inconstante na factualidade, contudo contundente em sua inédita apresentação.
Expressava a simplicidade no jeito de menina, nos vestidos sem estampa, na ausência de maquiagem, na delícia que era, para Enzo, ouvir a sua voz fraca em baixo tom eclodir com a consistência de seus questionamentos. O momento era o reconhecimento da legitimidade de seu discurso. A afirmação da felicidade, um passaporte sem licença.
Daquele momento em diante, o compromisso entre os dois era o da cumplicidade exercida em comum acordo com a espontaneidade de gestos sublimes, únicos, transparentes, seus. A blusa de Cassandra, levemente caída nos ombros, significava o desleixo desprovido de culpa, o que não permitia a Enzo outra interpretação que não fosse a doce satisfação do vislumbre com a beleza interiorana das curvas da menina de uns vinte e poucos anos.
A transfusão de sensações era o apelo distribuído entre os olhares hipnotizantes, a disritma impiedosa daquele emaranhado especial. Noites intermináveis entre o casal se faziam na predisposição do livre-arbítrio; as escolhas são produto da sobreposição da reciprocidade em detrimento da razão desenvolvida.
A grande descoberta de Enzo foi a retribuição incondicional de atos improvisados na exposição cotidiana, haja vista os julgamentos estabelecidos serem compreendidos como tão superficiais perante aquelas poucas longas menções de uma flor de fino trato, divinal, com um brilho angelical, linda vida.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Estribrilhos cordianos

Não que isso me traga qualquer sensação outra que não seja a transcrição do que é espontâneo antes de qualquer coisa. No céu de todo dia nasce protegido o Sol que guia nossa caminhada. É o jogo da vida que incandesce todas as relações cotidianas. Por mais que sejam raras, sempre trazem uma lição, fruto de uma experiência diferenciada.
Descanso não parece mais do que o intervalo de uma aposta séria, com a garantia de resposta. Ela vai passar, tenho certeza. Ainda que tão tarde, que me permita apenas decifrar teus passos inquietantes. Na janela, encontro o lugar de tua longa estrada; sob meus olhos se desenharam cinqüenta poucos anos de amor. Sentimento este dono de mim. “Superegoísta”, uma vez que aguçava alguns outros frascos de perfume às minhas sensações, tão afrodisíacas quanto inéditas (na capacidade de me revolver).
É a morada do meu interior. Esse devaneio trouxe um resquício da falta do que nunca senti. Ocupou tanto que vivo a pensar na calma das belas frases ao pé do ouvido. Minha troca, sem opção, é a escolha do retrato. Em sua pintura vejo toda a imagem da felicidade. E não usa cores. Repousa em si os sons do arco-íris que desencontro há muito. De quando em quando, devolvo aos mares as palavras guardadas sob as minhas sete chaves, seja pela omissão ou pela abnegação; outrora se entenderia que, para a obtenção da plenitude, necessário seria desviar de inúmeras fagulhas envoltas de expectativas.
O divã de minha vida, diva, dádiva de Deus, espera pelo retorno da ida que escapou a fios. O descompasso entre alegria de alma e a febre do corpo é a medida (in)exata do evento encantado. A mar teus erros, infinita soma de acertos. Feito dom do coração. Música iletrada de uma nota só.

- Tum-tum... tum-tum... tum-tum... tum-tum!

Corre à vista tuas lágrimas de emoção firme, longe daquela lembrança que lhe atormentava o pensamento. Luz da sombra em tela na marcha, na areia, visão da delicadeza, natural, súbita, insana. Incólume razão que me contorna e apaixona o meu ser com a comoção do “vir a ser”. A tradução de teus sonhos se revelam na similitude de tuas feições, resplandecentes, extenuantes, vibrantes, como a constelação tão singular e vigorosa na distribuição celestial de minhas ambições.

domingo, 30 de novembro de 2008

ESPELHO

DOCE NOVEMBRO


Tarde de sábado, final de novembro, um olhar taciturno permite infinitas interpretações acerca de seus pensamentos. Mãos hasteadas ao queixo, ar de mergulhar profundo em seu universo imaginário: aquilo é a menção sobre a pulsão de vida.
Chove lá fora. O zunido da janela é mera constatação da existência de nossos sentidos. E a grande providência é a preocupação com os detalhes, a observação sorrateira, o olhar quase que displicentemente ilustrando todo um cenário a sua volta. Seus simples gestos, seja um sorriso, seja um gesto, residem à manifestação plena sobre a felicidade, sendo certo que a afirmação de seus sacrifícios não provoca a dor por que se esperava.
A espontaneidade é o grande estímulo para grandes resultados. A produção é relevante em seu conteúdo, desde que seja levada às suas raízes mais destemidas, do plano da origem de sua natureza, tão simples quanto agradável.
O aceno independente registra todo o processo de construção das suas experiências. Braços tão fortes e serenos. Uma busca insaciável pelo saber, a ver em suas mensagens a grande oportunidade que se obtém a cada novo amanhecer.
Flores nascem. Céus se desfazem. A vida se renova, em novos tempos, tão mais incertos. A certeza da vida é a do erro. De coração. O que seria de minh’ alma sem esta falta de mim?
A disputa entre o belo e a garantia de sucesso parece tão menos vivaz perto de aquele transcorrer imperfeito. Futuro do meu pretérito imperfeito. Vozes me guiam na cristalinidade daquela transparência. Exposta a todos os efeitos da passagem do tempo. Capaz de entender todas as modificações por que passamos, sem destituir-se dos valores de cada momento e do que antes era nada mais do que poucos lanços de escada.
Tantos poucos que me fariam embriagar de tanta lucidez, ainda que na calada da noite. Sons ao vento, tantos meios, uma só forma: implacável força das escolhas de hoje, que pode vislumbrar o encontro da pulsão de vontade num futuro tão mais próximo do que a eternidade.
É certo que aqueles cachos, aparentemente desajeitados, refletem em seu balanço suave a natureza nobre de suas opiniões. Um espasmo de alegria em tão pouco espaço de tempo: se deixa levar pela passagem inesperada do vento ou ao obscurantismo da calada da noite, ao mesmo tempo, correspondente a seus fios de seda da alegria contida nos breves descansos sobre um colo companheiro. Quase nunca pede ajuda. E mal sabe que virou uma estrela. Muito menos que as estrelas têm hora certa para chegar. E não se pode dizer se tornam a passar na mesma rota: súbita forma de amar.
Costumam dizer que a alegria vem pela manhã; questiono, então, se não vale a pena enveredar nesta tal paz através da ininterrupta e contundente tomada do amor puro, longe de julgamentos, perto do acalanto, pleno por coisa em si, estúpida voz do coração, que não pensa em algo mais sem que faça parte daquele próximo março de que me relembro com tamanha admiração. Esse sonho não vai terminar.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Da magia à razão

A cada segundo de sua existência o homem tem tentado suplantar a si mesmo enquanto persiste em sua tentativa de compreender o mundo que o cerca. Buscando exteriorizar o que sente, ele expressa-se nas mais diversas formas, desde as mais básicas pinturas rupestres, até os limites da nanotecnologia, inserindo em cada invenção um pouco daquilo que é.A cada passo, o tempo que o aguarda torna-se completamente distinto do que fora antes, apenas pela força de seu desejo de mudar.
Todavia, o movimento que pode parecer natural à observação, é o resultado de uma árdua batalha entre a vontade humana e o medo. Esse mesmo sentimento que foi arma de coerção durante séculos e que até hoje mostra- se eficaz nos estratagemas que visam o controle social. Nada mais fácil do que dominar indivíduos aterrorizados, convictos de que somente uma força maior seria capaz de mantê-los a salvo daquilo que temem. Mas o que afinal, teme o homem? A resposta sempre foi a mesma: O maior objeto de medo é o desconhecido.
Incansavelmente cada grupo social tem, desde o mais remoto dos tempos, dialogado com seus temores, na tentativa de explicar o que ignorava, num mundo que encerrava segredos os mais diversos e dado a fenômenos imprevisíveis. Como entender o estrondo que rompia o silêncio, ao que se seguia um absurdo risco luminoso cortando os céus sem aviso? De que modo explicar o que parece impossível, dado o repertório do homem primitivo, e uma vez que se sabia completamente alheio ao mistério que se desenrolava diante de seus olhos? Ainda assim, ele tentou e traçou hipóteses, criando os primeiros deuses do imaginário humano. E cada fenômeno recebia um nome, sendo neste mesmo instante, personificado de coisa desconhecida à entidade sobrenatural: Nascia o mito.
Foi na busca pela compreensão que o ciclo histórico iniciou seu curso, aliando o repertório de signos conhecidos à infinita imaginação do indivíduo. E assim como nasceram as lendas, criou-se o pensamento filosófico, buscando no desconhecido de si mesmo as respostas daquilo que se ignorava. Foi o momento em que o homem ao olhar para seu próprio interior, reconheceu-se como ser capaz de estabelecer relações entre aquilo que sabia e o que captavam seus sentidos. E ao representar o sentir, criou a manifestação artística.
A arte, enquanto produção humana traz em seu cerne o mistério da criação divina e o processo empírico de conhecimento, através do uso de ferramentas as mais diversas, na tarefa de expressar o ser. É palavra, escrita ou pintada, moldada segundo as aspirações daquele que a criar, seja onde for o local de sua geração. Mármore ou tela, som ou movimento, imagem ou pensamento, a arte estabelece um vinculo dialógico não somente com a racionalidade, formada por séculos e séculos de aspiração humana, mas com o desconhecido, o inexplicável, o sentido que vai além do sentir, que sobressai a qualquer observação, no campo do mito.
Diante da arte, o homem se posta, não somente como agente da ciência, de posse de ferramentas de conhecimento, certo de poder explicar com sua gama de argumentos baseados na razão o evento que se apresenta, mas como o primeiro homem postou-se ante o primeiro fenômeno que não soube explicar: atônito.
Buscando, sem encontrar por vezes, resposta em seu repositório de explicações para a arte que contempla, o indivíduo somente vai conseguir captar inteiramente esta expressão artística, não só pelo uso daquilo que conhece, mas pelo mergulho no terreno do desconhecido, penetrando o universo do sentir. É ali, no espaço exato entre uma e outra nota, na diferença de nuance das cores de uma tela ou nas lacunas da frase escrita no papel onde persiste o real significado: Na sensibilidade que não se explica, no silêncio que paira sem que se consiga dizer uma palavra. É a magia do mito, trazendo à tona o que nos torna além de simples animais: Antes de nossa capacidade de pensar, nossa absurda e inexplicável finalidade de sentir.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O poder da informação

Dentro da perspectiva científica, o tempo é uma grandeza relativa, tendo sua dimensão pautada na importância dos acontecimentos que abriga e nas circunstâncias em que estes ocorrem.No dia 17,sexta feira última, terminava um seqüestro em Santo André, interior de São Paulo, com a consequente morte de uma das reféns depois de centenas de horas sob a mira de uma arma e ,é necessário dizer, debaixo de inúmeros holofotes televisivos.Mais do que mensurar o tempo do ocorrido,número amplamente divulgado pelos veículos de comunicação, não convém salientar o período em que tal fato ocorreu mas as particularidades deste no que diz respeito ao noticiário exibido.
Após o desfecho do caso,cumpre questionar não somente sobre o papel do Estado, mas da estrutura midiática que cercou o evento, noticiando-o à exaustão, como se da divulgação dos incidentes dependesse o curso correto dos acontecimentos. Em contrário, a ampla cobertura da mídia, antes de facilitar a resolução, dificultou,segundo a própria, a ação da polícia, divulgando estratégias de ação e alçando o seqüestrador à figura pública, com direito à voz e a postar-se como agente midiático, paradoxalmente , noticiando sua própria façanha em programas de auditório e congêneres.
Neste viés, cabe-nos perguntar: Que tipo de serviço prestou a mídia à sociedade? De que forma poderiam os veículos de comunicação, se é que deveriam, postar-se em situações como esta? Como coadjuvantes no processo de preservação da vida e em auxílio do Estado, ou como foi o caso,como figuras centrais,interagindo com o seqüestrador e contribuindo com a piora do estado de ânimo deste, pela ampla, segundo a própria grande imprensa, divulgação das implicações legais de seu ato e do que o esperaria assim que libertasse as reféns?
Neste caso a vida imitou a arte,como no filme “O quarto poder”, em que o jornalista Max Bracket interpretado por Dustin Hoffman, acompanha um seqüestro de crianças dentro de um museu por um segurança, Sam Baily (John Travolta),que apenas queria o seu emprego de volta.De desempregado, Sam torna-se possível estrela de programa e tem sua vida devassada pela avidez da mídia em tornar sua ação um espetáculo, acabando por manipular informações de modo a direcionar a opinião pública primeiro a favor,depois contra ele.
Na vida real, o poder midiático no caso de Santo André, sob o pretexto de noticiar o fato, criando uma estrutura de apoio ao seqüestrador e ao mesmo tempo repassando informações acabou por contribuir com o insucesso da ação o que demonstra a ausência de propósito social na divulgação do evento,mas a mera intenção de criar e manter o show garantindo a audiência, sem nenhum pudor ou objetivo além deste.Segundo o escritor Guy Debord,em sua obra A sociedade do espetáculo, “O espetáculo não quer chegar à outra coisa senão a si próprio.”

domingo, 19 de outubro de 2008

Coluna: Economia (por Diogo Martins)

Tudo o que você sempre quis saber sobre CDBs, mas tinha medo de perguntar


Noutro dia, estava num bar (de onde saem as melhores conversas, a propósito) com dois amigos. De repente, surgiu o assunto economia. Ambos começaram a falar do tema que toma conta do noticiário econômico brasileiro: a crise financeira americana e suas conseqüências na Bovespa. Perguntaram-me se era um bom momento para investir na bolsa. Disse-lhes que depende da duração da crise lá fora e que os papéis de grandes empresas nacionais, como a Vale e a Petrobras, estão baratos (e devem ficar ainda mais). Mesmo assim, ambos continuaram receosos.
Como a dupla demonstrou interesse em ter uma rentabilidade maior do que a da poupança, mas sem os riscos da Bolsa (talvez este também seja um desejo seu, querido leitor), acenei para a possibilidade de aplicação em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), cujos papéis são emitidos pelos bancos, a fim de aumentar seu crédito (liquidez). Ou seja, o cliente empresta dinheiro aos bancos, e ganha um percentual sobre o valor negociado.
Estes papéis podem ser prefixados, com rentabilidade e prazo definidos na aplicação; pós-fixados, com ganhos atrelados aos Certificados de Depósitos Interbancários (CDIs), que seguem a variação da taxa básica de juros (Selic), hoje em 13,75%; ou ter Swap, cuja remuneração é prefixada ou pós-fixada, de acordo com as Taxas Selic, cambial ou CDIs. Para esta última modalidade, os recursos empregados, normalmente são superiores a R$ 100 mil (cem mil reais). Enquanto que nas outras, na maioria das vezes, a aplicação é a partir de R$ 1000 (mil reais). Algumas instituições bancárias aceitam aplicações com valores inferiores.
Especialistas recomendam que investidores apliquem em bancos de primeira linha, já que os riscos de falência destas instituições são menores. Os bancos de segunda e terceira linhas dão maior rentabilidade, mas suas chances de quebra também são maiores. Os recursos aplicados em CDBs são protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito, criado pelo governo e formado com contribuições dos próprios bancos. No caso de falência da instituição bancária, estão garantidos R$ 60 mil (sessenta mil reais) por CPF.

Mas antes de começar as suas aplicações, fique de olho no Imposto de Renda. Caso os recursos sejam resgatados antes de seis meses, a tributação é de 22,5% sobre o rendimento; de seis meses a um ano, de 20%; de um a dois anos, de 17,5%; e, acima de dois anos, de 15%.
Lembre-se sempre de pesquisar as taxas e as condições de cada banco. Procure negociar com o seu gerente. Não se esqueça de que, em se tratando de CDB, quanto menor o investimento, menor a rentabilidade.

Até a próxima!!!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Coluna:Literatura(por Tatiane Mendes)-Antes tarde do que nunca

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” (Jose Saramago)
Sobre a cegueira... (Mas não era pra ser sobre literatura?)
Essa coluna destina-se a dissertar sobre um campo vasto: A literatura e suas abrangências... Ocorre, porém, que esta não encerra-se no espaço entre as páginas de uma obra impressa. Em contrario, o processo de formação de pensamento a partir da leitura, inicia-se no livro, mas vai além, porque à palavra escrita, somam-se os inúmeros significados que provoca em uma consciência e a irremediável transformação que opera na vida de quem lê, levando a uma nova forma de pensar e viver. Então não se lê somente no livro, lê-se na vida, pelo simples fato de que, como seres humanos estamos fadados ao exercício doloroso e constante de buscar sentido, construindo uma linguagem comum.
Cinema nada mais é do que linguagem, visual e sonora, escrita na tela luminosa, em contraste com o escuro. É necessário que exista a escuridão, bloqueando o sentido básico da visão para que se possa perceber a mensagem cinematográfica de forma mais completa. Diante da tela estamos indefesos, inertes,prontos a ser invadidos por uma sucessão de palavras imagéticas que irão gravar-se no nosso inconsciente definitivamente, transportando-nos para um universo desconhecido de sensações as mais inesperadas, sem o menor controle ou previsão.
O filme “Ensaio sobre a cegueira“, baseado na obra de mesmo título do autor português e Nobel de literatura José Saramago, é uma viagem incessante ao universo dos sentidos, um mergulho profundo no inconsciente coletivo humano. E o que é pior: às cegas. Sobre o pretexto de uma história de ficção onde a sociedade atual é acometida de uma epidemia de cegueira, o filme narra a evolução do caos, quando a subtração de um único sentido provoca uma ruptura sem precedentes na vida contemporânea. Metaforicamente essa abstração, levada ao caráter de epidemia, expõe o ser humano à realidade, sobre ele mesmo e o outro.
No inicio do filme, o primeiro caso ocorre no meio do trânsito, vitimando um motorista que, em questão de segundos, passa de condutor de sua própria vida a objeto da piedade alheia. É cercado por curiosos por não conseguir movimentar seu carro e precisa que o levem para casa. No escuro, todas as pequenas certezas do cotidiano se rompem como por mágica e o primeiro cego é conduzido para casa por um estranho que, ao deixá-lo em seu apartamento, rouba seu carro.
O público nesse momento recebe o primeiro choque: Como é possível uma maldade tamanha com um inválido? Mas ainda há mais por vir. Os casos de cegueira vão se multiplicando a partir do primeiro e daqueles com os quais este tem contato quando de sua visita ao médico, incluindo pacientes, recepcionistas e até mesmo o médico, levando-o ao desespero e a tentar contato com as autoridades de saúde. A resposta do governo é trancafiar a todos num manicômio abandonado, simbolicamente representando a exclusão de todo aquele que possa perturbar a ordem social.
Os cegos, um a um, vão sendo encarcerados, juntando-se em celas, sendo que, ao médico acompanha sua mulher, a única a qual a cegueira não acometera. É ela a única que vai tentar ordenar o caos, cuidando de todos e tentando restituir-lhes algo de humano. Mas o que afinal é humano, quando eliminam-se as aparências?
Os indivíduos desprovidos de visão retornam ao seu estado mais natural, expondo sentimentos de forma crua, quase de volta à sua condição de animais. Mas, associada à completa desordem, a capacidade de pensar persiste, porque os cegos organizam-se em grupos, e como é da natureza humana inicia-se o embate entre bons e maus, pelo mais vil e essencial dos motivos: a comida. Os que detém o poder através do revólver, desmentidas todas as idéias de compaixão humana, obrigam os outros a entregar-lhes seus pertences de valor, ao que cabe uma pergunta: Afinal de contas, quais serão os valores numa sociedade da imagem, uma vez que já não se pode mais enxergar?
O filme vai, um após um, derrubando os dogmas contemporâneos de civilidade, respeito, piedade, afeto, todos jogados ao chão, infestado de roupas e restos de comida, misturados a excrementos, onde os cegos se arrastam, dia após-dia, em sua tentativa de continuar existindo. Em um determinado momento, o grupo que guarda a comida é visitado pelo médico, que ao perceber que entre eles esconde-se um cego natural, dos que já nasceram sem enxergar, dispara, incrédulo: “Você que é cego devia ter mais compaixão pelos outros”. Ao que o outro responde: ”Ele só é cego, é uma pessoa como outra qualquer”. Onde cabe uma discussão sobre os conceitos pré-estabelecidos de cooperação entre deficientes e não-deficientes e a pergunta: Até onde vai o preconceito e começa a identificação como seres humanos,sem diferenças, em respeito não pelas fraquezas de uns, mas pela consciência de que estão todos dentro do mesmo plano ,sem hierarquias?
O tempo trata de extinguir qualquer resquício de estabilidade e os cegos se amontoam sobre o regime do medo, sob o comando sutil da mulher do médico, buscando manter alguns rituais simbólicos, como a lavagem e o enterro dos seus mortos, indicando que algumas subjetividades ainda permanecem, mesmo sob o caos. .E quando eles ultrapassam os limites da desesperança e do desconsolo, percebem que foram deixados de lado pelo poder estabelecido, fugindo então do cárcere, em grupo, o mesmo que se manteve ao lado do médico e sua mulher.
Amedrontados, de mãos dadas, com a exata noção de que suas idéias pré-estabelecidas não servem mais para essa nova condição, recomeçam passo a passo a caminhada de volta à casa, comprovando pela observação da mulher do médico a completa destruição do mundo tal qual eles o conheciam. Pelas ruas cães e homens dividem a sarjeta e acotovelam-se por um pedaço de pão. Nos mercados, nada sobre as prateleiras. A mulher do médico os leva pra casa e institui uma nova ordem, onde se faz essencial que um se responsabilize pelo outro.
Os cegos descobrem-se, alimentam-se, cuidam-se mutuamente e é nesse novo modo de vida, que o filme surpreende pela recuperação da visão ao primeiro cego. Então aquele grupo que reproduz a situação de todos os seres da Terra, percebe que há esperança de voltar a ver. Mas antes,o que o filme propõe talvez seja que a recuperação da cegueira se deu no momento em que o primeiro cego parou de enxergar e teve que reinventar uma nova forma de viver que não seria como a conhecemos, permeada de individualismo e ausente de sentidos.É como se ,somente através do rompimento com a visão, o homem começasse paradoxalmente a enxergar e pudesse redescobrir o mundo, não somente com seus sentidos básicos, mas com a sensibilidade, dando nova forma ao conceito de humano.
O filme, quase que literalmente, reproduz com fidelidade condizente com seu formato, o texto de Saramago, em um ritmo que não conduz ao pensamento distanciado, mas arrasta às sensações as mais aterradoras, devido à imediata identificação do público com o que se mostra na tela. O assustador é que somos essencialmente tudo aquilo que nos amedronta e cada conflito descrito na tela reside em nosso interior em estado de latência. O filme não convida somente à reflexão, vai além, impõe verdades, desnuda tabus e traz à tona o que somos, com tudo aquilo que não conseguimos mais enxergar.

Coluna: Política (CONJECTURANDO O “RETROCESSO”)


O “estado” eclesiástico e a rédea social

Sob os olhares de comunicadores sociais acerca de um fenômeno de caráter político-ideológico, vale frisar que, antes de mais nada, a retratação do “retrocesso”, enquanto produto da reincidência de uma amostra outrora percebida, representa a remontagem de um Estado – instituição –, onde o seu líder era o “segundo homem” depois de Jesus (Papa).
Traçado um paralelo sobre a observação da realidade, é importante ressaltar que o “retrocesso” é a simbiose entre factualidade e as perspectivas tangentes ao mundo que nos cerca.
A legitimidade do poder é concedida pelos líderes institucionais, quer seja na Igreja, no Estado-nação ou órgão de natureza educacional, cultural ou para o estabelecimento do convívio público.
No que concerne ao curso histórico dentro do processo de organização do pensamento humano e manifestação de suas normas e condutas em meio à sociedade, é imprescindível salientar que a manifestação que a Igreja exerce vai além da capacidade de raciocínio das pessoas, transpondo-se a toda superficialidade de seu repertório, bem como à indisponibilidade de consciência crítica sincronizada de acordo com a manipulação a que elas são submetidas.
É necessário acrescentar que, ao passo de uma avaliação sociológica ou mesmo antropológica, o tópico “religião” difere de sociabilidade, uma vez que a primeira é função da transculturação entre o poder de pensar e agir das pessoas. A última representa a interação dos entes a partir de uma ordem pré-estabelecida.
Vale, finalmente, afirmar que os mecanismos de manipulação do “subconsciente” popular por intermédio dos compromissos protocolados entre Estado e Igreja são fluxo pleno da circunstância, destituído qualquer desvencilhamento na prospecção dos discursos produzidos, bem como subvertem a condição de civilidade dos cidadãos.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Coluna Política (por André Figueiredo)

Retrocesso

Representaria um retrocesso, com certeza, a volta da não-separação entre Estado e religião.A mobilização promovida pelo bispo Edir Macedo significa o poder novamente nas mãos de uma igreja, fato que já acontecera com a igreja católica na idade média.
O sincretismo e o ecumenismo seriam caminhos mais viáveis para a pretensão de uma ditadura religiosa no poder.Entretanto, parece difícil que adeptos de outras vertentes religiosas,como a predominante igreja católica, aceitem uma fusão futura com a intenção de tomar o poder.
O grande ponto que ninguém comenta - por ser delicado ou por interesses- é a educação de base.Esse sim é um elemento crucial dessa história.Porém, passa desapercebido pela mídia, que pouco tangencia tal assunto, porque não interessa para os empresários da noticia que a população perceba essa situação.Fica mais fácil induzir e manipular.
Portanto, enquanto não tivermos um investimento forte ou até prioritário em educação de base e uma mudança de paradigma no tratamento dado à educação para que possa atrelar-se à cultura histórica de cada região não teremos uma população com visão crítica capaz de discernir os limites das igrejas e menos ainda o papel do Estado.

ps:Essa coluna já deveria ter sido postada na semana passada,mas por um processo de esclerose avancadissimo nesta que aqui escreve,so foi incluida hoje.Desculpe,Andre....

domingo, 12 de outubro de 2008

Coluna: Economia (por Diogo Martins)

O Brasil sem crédito

Se você ouvir alguém dizer que a economia brasileira não está sendo – ou não será – afetada pela crise financeira que abala os Estados Unidos, pode contar que esta pessoa está enganada. A crise chegou, e para todo o mundo, inclusive para o Brasil. Quando ela vai embora? A verdade é que ninguém sabe. Neste momento, é impossível prever.
Prova disso é que as empresas brasileiras devem, já em 2009, diminuir seus investimentos no país. Este quadro está sendo motivado pela crise financeira (encolhimento do crédito) americana, já que empresários brasileiros buscam dinheiro lá fora a fim de investir aqui dentro.
No exterior, quem tem dinheiro, não quer emprestar, com medo de levar calote. Então, o acesso ao crédito fica mais seletivo e caro. Conseqüência da diminuição de investimentos: queda na oferta de produtos e na geração de empregos, que diminui a renda do trabalhador.
Especialistas projetam que, em 2009, o PIB (soma das riquezas produzidas por um país) brasileiro cresça modestos 2,7%, por causa da crise. Neste ano, o Brasil crescerá entre 5,5% e 6%.
O momento não é o de contrair dívidas. Caso você tenha alguma, tente eliminá-la o mais rapidamente possível, para não correr o risco de não pagar. Evite parcelar suas compras. Procure pagar tudo à vista. O natal vem aí, cuidado com os excessos. Lembre-se que a crise americana começou quando pessoas daquele país deixaram de honrar seus compromissos hipotecários. E deu no que deu.

Prometo me aprofundar, em breve, sobre a crise americana, com maiores detalhes. Na próxima coluna, abordaremos os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e os Certificados de Depósitos Interbancários (CDIs). Até a próxima!!!

domingo, 5 de outubro de 2008

Coluna: Política (Filipe Barbosa)

VOX POPULI: A "vez" do povo



Às margens das eleições para o primeiro turno, com a “corrida” para os cargos de prefeito e vereador, cabe nesta conjuntura uma reflexão fundamental: a importância do voto.
O voto é a manifestação contundente dos anseios dos indivíduos, na condição de cidadãos, quanto à tomada de decisões para o desenvolvimento – ordem e urbanidade -, quer seja dos municípios, distritos e cidades, quer seja dos Estados ou, em larga escala, do governo do país, como a nação democrática que demonstra em quase sua totalidade a praticidade no regimento de suas normas.
É necessário frisar que a apropriação e o uso da capacidade crítica na escolha particular das urnas é uma ferramenta de grande relevância para a mudança da perspectiva social, principalmente no que tange ao cumprimento dos deveres e compromissos firmados no controle e razoabilidade dos segmentos da política e economia, bem como a plena observação aos incentivos no âmbito da saúde, educação e cultura.
O Estado não perceberá transformações significativas, caso a população não se desvele para o entendimento do sistema vigente, das tendências partidárias e da contribuição – quem sabe provável ou possível? – de cada candidato. A corrupção é de tal maneira irrestrita e conivente com as intenções do voto manipulado, que se “escora” na ignorância coletiva, a despeito do conhecimento das causas, além da falta de expectativa, culminando em comodismo: combustível para a disseminação de comandos mal administrados e sucedidos.
Tecendo uma análise mais aprofundada acerca das interações em grau hierárquico no campo institucional, torna-se indispensável ilustrar o atual cenário político brasileiro, cujas características justificam os sucessivos escândalos, como, por exemplo, o abuso da tônica dos “cartões corporativos”, que se mostram fomentados pela arbitrariedade das ações, errôneas por natureza, inclusive pela ausência de mecanismos legais para fiscalização correta nos expedientes das Câmaras dos Deputados e dos Vereadores.
Outro fenômeno existente neste cerne é o nepotismo, apreciação do juízo eletivo para nomeação de familiares ou consangüíneos à posse de “cadeiras” auxiliares, de menor ou igual prestígio. Esta faceta caracteriza a ilegalidade na inserção em forma de “vantagem” em detrimento da imparcialidade (teórica) promovida pelo regime democrático.
Sob a ótica do comunicador social, faz-se preciso destacar a incumbência de cada membro constitucional deste território, diante daquilo que sublime à linha tênue entre qualquer convicção ideológica e o exercício de consciência cívica para a “revelação” dos novos “chefes” da estabilidade pública, o que não significa, necessariamente, prosperidade e progresso aos direitos da cidadania regional no Brasil.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

coluna Literatura-por Tatiane Mendes

Drummond, pintor de idéias...

Carlos Drummond de Andrade,poeta , mineiro de Itabira, é uma pedra no meio do caminho, a continuamente nos obrigar a parar para refletir....Que quererá ele dizer sobre a pedra,no meio do caminho (No meio do caminho) , além do fato de confirmar a presença de determinado objeto disposto na frente da personagem do poema? A essa pergunta,ele com certeza responderia, com o silencio taciturno e ,talvez, um leve sorriso enigmático...Talvez a pedra não queira mesmo dizer nada..É nele que reside o mistério...Em seus textos as palavras compõem uma cena, sem necessidade de outro artífice senão o arranjo que lhes dá o poeta, como se , ao correr a caneta no papel, em vez de letras, rascunhasse figuras, imagens que lhe brotam no pensamento e que compartilha com aqueles que o lêem..Mas Drummond não descreve a cena muito detalhadamente, como se deixasse ao leitor o privilégio de inventar sua própria história.Em seu conto caso do vestido, vê-se a mãe, miúda e envelhecida, a narrar às filhas suas desventuras com o homem que seria o pai delas.É nas lacunas do texto em que se percebe a respiração da pobre mulher, seu pudor em relevar às filhas que aquele vestido pendurado sobre o batente era fruto de uma aventura de seu marido com uma dona de quem ele se enamorara...Quando ele retorna à casa,apos um longo tempo,ela reencontra a tranqüilidade..
“...O barulho da comida
na boca, me acalentava,
dava-me uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
“vosso pai subindo a escada..”(O caso do vestido)
E o leitor realmente ouve os passos a encher o silêncio da casa e o coração da velha senhora, que trata de terminar a história,não quer aborrecer o pai das meninas a relembrar dissabores...
Drummond é isso,construção de imagens, sejam elas de qualquer tipo,como no caso do poema "o amor que bate na aorta" ,em que descreve magistralmente o maior de todos os males humanos, o mal de amor, e este sentimento,subitamente transformado em personagem, a subir o muro , a cair e sangrar,sob os olhos do público (O amor bate na aorta)....Escorrendo do corpo andrógino, o sangue talvez se misture ao sangue do leiteiro, que sai de casa cedo para entregar o leite e é surpreendido por uma bala certeira desferida pelo senhor assustado(A Morte do Leiteiro )....Mais uma cena do filme drummondiano...Em sua palheta, cores infinitas, um tanto desbotadas ás vezes, porque o tempo também passa para ele....E enquanto o tempo escorre,a máquina do mundo se vai miudamente recompondo( A máquina do mundo ), em versos e estrofes, e o poeta em silêncio, óculos ao rosto, em sua estreita letra a descrever sentidos , registrados por eles em sua aguçada capacidade de perceber o mundo....Não o mundo tangível, mas o mundo findo,pois que esse muito mais do que lindo, com certeza persistirá(Memória).Não importa o fato, o que importa é a combinação de cores que suscitará mais um texto com a assinatura de Carlos Drummond de Andrade, gauche na vida(Poema de Sete faces), pintor de idéias...